Mais mulheres na política: a hora é agora

Mais mulheres na política: a hora é agora

A representatividade da mulher na política cresce a passos de tartaruga no Brasil e por isso é tão importante e necessário trabalhar a conscientização e o convencimento.

Aline Sleutjes 19.04.2022 19h54

A participação da mulher na política é um tema que ressurge com mais força a cada nova eleição. Este ano o debate ganha corpo em meio à definição das pré-candidaturas femininas que começam a se habilitar para a disputa dos governos estaduais, assembleias legislativas, Câmara Federal, Senado, governos estaduais e até para a presidência da República. 

A representatividade da mulher na política cresce, mas de forma lenta, mesmo sendo a maioria entre os 150 milhões de eleitores brasileiros, quase 53%. O país está na 142ª posição entre 191 nações citadas no Mapa Global de Mulheres na Política da Organização das Nações Unidas (ONU) e no 9º lugar entre 11 países da América Latina em estudo da ONU Mulher.  Nas últimas eleições, apenas quatro mulheres foram eleitas para representar o Paraná na Câmara dos Deputados. Lá, elas somam 78 cadeiras, ou 15% dos mandatos.

Conversei sobre o tema com a advogada Doris Newmann, que é pré-candidata a Deputada Federal pelo Rio Grande do Sul, entendemos que ainda é muito tímida a presença feminina na política e existem muitos desafios para reverter esse quadro.

Precisamos entender que por mais que a bancada feminina lute por cotas para aumentar a representatividade da mulher, o espaço ocupado por nós, culturalmente, é muito pequeno. Precisamos, neste momento, conscientizar as mulheres a colocarem seus nomes à disposição da sociedade e aquelas que não querem, que apoiem, ajudem, fortaleçam e façam campanha às que têm coragem. Somente definir cotas de 30% ou modificar a legislação para aumentar esse número para 40% ou 50% não vai resolver a baixa participação de mulheres na política e a carência de candidaturas femininas.

Não adianta aumentar a proporcionalidade de candidatas se as votantes não ajudam a eleger estas mulheres. Se homem vota em mulher, por que mulher não vota em mulher? Das eleições que participei, o apoio dos eleitores masculinos foi mais de 70%. Então, se os homens votam em candidaturas femininas e acreditam nas mulheres, precisamos amadurecer o debate para as mulheres também aceitarem e acreditarem mais nas mulheres como agente política.

Já conquistei espaços importantes no mundo quase que exclusivamente masculino da política. Presidi a Comissão da Agricultura da Câmara dos Deputados, fui vice-líder do governo na Câmara e agora vice-líder do Governo Federal no Congresso. A trajetória sempre é difícil, mas ser a primeira mulher na história do Brasil a presidir a Comissão da Agricultura na Câmara dos Deputados é uma grande vitória. Pois, foram 20 anos de muito trabalho para ser eleita Deputada Federal. 

Nas primeiras reuniões que eram mais de 90% de homens, porque o agro, que é a minha área mais forte de atuação, é formado por um volume muito maior de homens. Me senti desconfortável algumas vezes, mas aos poucos, fui conquistando o meu espaço, mostrando para eles que eu não estava ali para ser um enfeite na reunião, eles não sabiam que eu entendo de agro e aos poucos tive o reconhecimento pelo meu trabalho. Para alçar o topo com os próprios méritos, sem favores ou dependência de cotas, precisamos trabalhar muito, para incentivar ainda mais outras mulheres a também buscarem novas oportunidades e ocuparem espaços onde elas quiserem. Quando comecei realmente a participar, falar mais, expor as minhas ideias, colaborar, então algum tempo depois eu já estava na diretoria da Frente Parlamentar da Agricultura, passou mais um tempo e eu já estava dentro de todos os projetos e relatórios grandes. No ano seguinte fui eleita presidente da Comissão da Agricultura. 

A ascensão da mulher a cargos de chefia pode ocorrer com mais frequência na iniciativa privada, onde as mulheres provam que têm currículo e qualificação, experiência técnica, e vão assumindo cargos de responsabilidade, mas na política é mais difícil, por isso que eu luto, para que as mulheres tenham oportunidades, assumindo temáticas e iniciativas que façam a diferença na vida de todos os cidadãos. A política, quando feita com seriedade, é um instrumento de transformação da sociedade, direcionada para o bem de todas as pessoas.

As mulheres não podem se assustar com a política porque ela é predominantemente masculina e voraz. As mulheres ainda não se sentem autossuficientes a ponto de quererem se colocar à disposição. A política realmente não é um mundo fácil. Mas não tem segredo. Ela te consome, exige de você 24 horas de dedicação. Isso é muito difícil porque a gente não consegue deixar de ser a mãe, deixar de ser esposa, deixar de fazer as nossas atividades femininas, nossas outras funções domésticas. Então como abandonar tudo isso para ser deputada, vereadora, prefeita, senadora, governadora?

Mas é possível conciliar todas as atividades e responsabilidades da vida pública e da privada. Mas nós, damos conta sim! É certo que nem sempre podemos assumir compromissos pessoais, fazer coisas de que gostamos ou estar presente junto da família a todo momento. São grandes os sacrifícios. Às vezes, fico até três semanas sem poder voltar para a minha casa, mesmo com três filhos. Mas o que é maravilhoso em tudo isso, que te faz bem, é você ver a tua história acontecer. É você melhorar a vida das pessoas, da sua família, dos seus filhos, ver os resultados positivos do teu esforço, do teu trabalho. Vale muito a pena.

A divisão igualitária das responsabilidades familiares e a questão cultural afastam a mulher da política, barreiras que precisam ser derrubadas. O chamamento à participação da mulher na política passa por um trabalho de convencimento e por um estímulo que deve começar ainda na infância, com ensinamentos sobre cidadania, responsabilidade social, patriotismo, atuação, dentro de casa e nas escolas.

Isso deve ser uma questão social, começando pelo ensinamento das nossas filhas mais jovens, incentivando o envolvimento, a fazer a sua parte, mostrando que é importante desenvolver um trabalho em associações de moradores, em grêmios estudantis, igrejas. Ir para a luta, e quem sabe um dia, essa menina passe a ser uma mulher líder, combativa, que vai chegar onde ela quiser com autossuficiência e dinamismo.

Como Deputada Federal e hoje pré-candidata à Senadora da República pelo Paraná, entendo que as mulheres estão atrasadas quando o assunto é ser política e, por este fato, o chamamento precisa ser feito já, intensificar o trabalho de convencimento para que as mulheres ingressem na política e também para que apoiem e votem em outras mulheres. 

Não podemos mais ficar esperando, perdendo espaço, as oportunidades acontecem e o que falta algumas vezes é por falta de coragem, a determinação em dizer ‘eu vou’ e correr atrás para que aquilo dê certo. Vamos mostrar que somos capazes. E nesse processo, temos que convencer outras mulheres que estão aí lutando com coragem para ocupar espaços na política. Precisamos mostrar que somos qualificadas, que podemos mudar as coisas e fazer a diferença. Por isso, eu insisto: venha para a política, participe, você consegue!

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