Tibagi

Tibagi

Renata Regis Florisbelo 19.10.2021 12h26






Tibagi era menino livre e solto na beira do rio revolto. Garoto de maio, já tinha meses quando a mãe Arminda esperava pelo curandeiro ribeirinho que era chamado para dar nome aos meninos. Naquelas paragens quando mulher sem marido tinha filho, diziam que era bom agouro trazer o caboclo. O curandeiro, um misto de tudo, fumava seu cachimbo, preparava o tabaco com ervas e pedia pelo nome. Cochichavam as bocas de comadres mal contidas que a Arminda era mulher sem finda, sem paradeiro, nas idas e vindas um dia voltou recém-parida. Trazia o menino no colo e como chorava. Pulmão forte, quando na beira do rio veio, Arminda o lavou ao suor do corpo feminino nas águas. Não tinha mágoas, nas corredeiras só sabia esfregar as roupas, trouxas cheias, batidas na pedra e quaradas no sol. O menino, depois de banhado voltou na bacia. Moisés às invertidas.

 

O céu ficou preto, carregado e furioso, disposto a descarregar raios, trovões e fagulhas d'água. Arminda esperava o ribeirinho para o menino que ainda não tinha nome. No ar, os estrondos aumentavam. O vento soprava forte, queria derrubar casas e palafitas, tudo o que se opusesse e insistisse em ficar de pé. O bebê, quieto, olhava como quem entende e espera, como quem sabe que esperar é um dom, o que os afoitos jamais saberão. As línguas que não eram bem-vindas na casa da Arminda adivinhavam o pai do menino. Umas diziam que era um moço sem destino certo que parava por lá de quando em vez. Outras apostavam que era coisa feita, feitiço de lua cheia, capricho de mulher mandingueira que não quer homem a perturbar, prefere uma semente de vento a gerar um rebento do que ter fulano a lhe incomodar. Lembravam ainda do politiqueiro que estava sempre entre os ribeirinhos. Não, o politiqueiro não, Arminda não era mulher tola. A barriga nem cresceu, uma grávida sem ventre, só podia ser coisa do vento em forma de semente.

 

A tempestade piorou, encheu e transbordou as águas do rio. O curandeiro se foi, afundou na canoa, nas águas do Tibagi e só encontraram o cachimbo e o maço de ervas. Era mau agouro se o menino não tivesse nome de baforada do cachimbo do curandeiro. Que jeito, tomou o cachimbo, macerou as ervas e baforou, olhando para o menino e para o rio, a imagem revelou, menino Tibagi.

 

 

Autoria: Renata Regis Florisbelo

Escritora, autora de 14 livros e catalisadora cultural. Divulga haicais diariamente nas redes sociais desde 2014. Tem mais de 550 textos publicados nos veículos de comunicação dos Campos Gerais. É integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais, do Centro Cultural Professor Faris Michaele (atual presidente) e da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes. Encontra na arte seu nicho por onde desvelar o melhor olhar para o mundo. 

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