Bola Rolando: Operário paga a conta de escolhas erradas
Operário perde para o Goiás, expõe falta de ritmo do elenco e deixa Alberto Valentim com difícil missão na reta final da Série B.

O Operário Ferroviário perdeu por 2 a 0 para o Goiás, no Germano Krüger, na estreia de Alberto Valentim, mas seria injusto colocar na conta do novo treinador os problemas apresentados pelo time. Pelo contrário: mesmo com a derrota, gostei da primeira participação de Valentim no comando alvinegro.
O treinador escalou aquilo que, neste momento, parece ser o melhor que o Operário pode apresentar. Tentou modificar a estrutura da equipe, utilizou jogadores que vinham recebendo poucas oportunidades e colocou em campo uma formação que buscava ter mais presença no meio-campo.
O problema é que não existe milagre.
A principal deficiência apresentada diante do Goiás não nasceu nesta semana. Ela é consequência de uma temporada na qual o elenco foi pouco utilizado e vários jogadores chegaram à reta final da Série B praticamente sem ritmo competitivo.
Operário teve a bola, mas o Goiás teve o jogo
O Fantasma iniciou a partida em um 4-1-4-1, com Matheus Trindade à frente da defesa e Caio Dantas como referência ofensiva. Houve posse de bola e, em alguns momentos, domínio territorial.
Mas foi uma posse pouco produtiva.
O Operário tinha a bola, avançava pelo campo, mas encontrava enorme dificuldade para transformar esse controle territorial em oportunidades claras. Enquanto isso, o Goiás fazia exatamente aquilo que queria.
A equipe comandada por Mozart mostrou organização, compactação e uma marcação bem encaixada. Não precisava ficar o tempo inteiro com a bola porque sabia onde poderia machucar o Operário.
E machucou.
No primeiro gol, Lourenço cobrou uma falta forte e venceu Wagner. Na minha avaliação, foi uma falha do goleiro do Operário. A bola foi praticamente em sua direção e, apesar da força da cobrança, era uma finalização defensável.
O segundo gol nasceu de outra jogada em que o Goiás encontrou espaço. Lucas Rodrigues avançou pela esquerda e cruzou para Lucas Clemente completar e ampliar a vantagem.
Pouco depois, o próprio Clemente ainda teve oportunidade de fazer o terceiro.
O placar de 2 a 0 poderia ter ficado ainda mais complicado.
A conta chegou na reta final
O maior problema do Operário neste momento não é simplesmente escolher quem deve começar jogando.
É colocar em campo jogadores que passaram boa parte da temporada sem sequência.
Zuluaga, Pedro Vilhena, Breno, Dudu e outros atletas tiveram poucas oportunidades. Quando são chamados agora, justamente no momento mais importante da competição, precisam entrar e imediatamente apresentar ritmo, entrosamento e entendimento tático.
Isso não acontece de uma hora para outra.
Um jogador normalmente precisa de partidas consecutivas para ganhar confiança, entender os movimentos dos companheiros e atingir um bom nível competitivo.
Só que faltam poucos jogos.
Quando esses atletas finalmente estiverem mais adaptados, a Série B provavelmente terá terminado.
Essa situação ajuda a explicar por que o Operário mostrou tanta diferença de ritmo em relação ao Goiás. De um lado, um time acostumado a atuar junto. Do outro, jogadores tentando encontrar espaço justamente quando praticamente não existe mais margem para erro.
Valentim não pode ser responsabilizado
Por isso, considero muito cedo — e injusto — qualquer tentativa de responsabilizar Alberto Valentim.
Ele encontrou um elenco com jogadores desgastados e outros sem ritmo de jogo.
Na estreia, tentou mexer.
Escalou atletas que poderiam oferecer alternativas e modificou peças durante a partida. Breno, por exemplo, conseguiu produzir algumas jogadas interessantes e participou da construção de uma das melhores oportunidades do Operário no segundo tempo, quando Caio Dantas ficou diante do goleiro Tadeu e finalizou para fora.
O problema de Valentim não é descobrir que existem alternativas.
É fazer essas alternativas funcionarem imediatamente.
Durante grande parte do campeonato, o Operário utilizou praticamente uma base fixa. Faltou rodar mais o elenco. Faltou preparar substitutos. Faltou construir um verdadeiro plano B.
Agora essa ausência cobra seu preço.
O sonho ficou muito distante
Matematicamente, ainda existe possibilidade de uma arrancada nas últimas rodadas.
Mas futebol não pode ser analisado apenas pela calculadora.
O Operário precisaria de uma sequência quase perfeita em um momento no qual ainda está tentando reconstruir o time. Por isso, para mim, a possibilidade de alcançar o objetivo nesta Série B ficou extremamente distante.
E o próximo desafio não facilita nada.
O Fantasma enfrenta o América-MG, no sábado, às 18h30, no Independência, em Belo Horizonte.
Pode existir a impressão de que enfrentar uma equipe sem maiores ambições na classificação seja uma vantagem. Não necessariamente.
Vi o América jogar contra o Criciúma e, apesar da derrota por 1 a 0, apresentou um futebol competitivo. Foi um adversário organizado, que jogou sem o peso da obrigação e poderia até ter conseguido resultado melhor.
É exatamente aí que mora o perigo para o Operário.
América-MG pode virar uma carne de pescoço
O América joga com menos pressão e possui jogadores experientes. É uma equipe que pode atuar de maneira mais leve enquanto o Operário entra em campo praticamente obrigado a vencer.
Essa diferença psicológica pesa.
Alberto Valentim terá agora uma semana inteira para trabalhar, conhecer melhor seus jogadores e estudar o adversário.
A possível recuperação de atletas também pode melhorar as opções da equipe. A volta de jogadores do sistema defensivo permite testar novas formações e corrigir problemas vistos contra o Goiás.
Existe espaço para evolução.
Mas não existe tempo sobrando.
Essa talvez seja a grande herança desta reta final: Valentim recebeu um grupo no qual parte dos titulares chega desgastada enquanto boa parte dos reservas precisa reaprender a competir em alto nível.
Não é possível disputar 38 rodadas utilizando sempre praticamente os mesmos jogadores.
Campeonato longo exige elenco.
Exige alternativas.
Exige planejamento.
O Operário está descobrindo isso justamente no momento em que a competição está terminando.
E talvez tenha descoberto tarde demais.
























