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Colesterol alto não dói: por que tantos brasileiros só descobrem o problema depois do infarto

Um exame de sangue de rotina, pedido por outro motivo qualquer, é a forma mais comum de descobrir um colesterol elevado. A pior forma é a sala de emergência. Entre esses dois extremos existe um intervalo que pode durar anos, e é justamente nesse intervalo que mora o problema. O colesterol alto não causa dor, […]

Colesterol alto não dói: por que tantos brasileiros só descobrem o problema depois do infarto
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Um exame de sangue de rotina, pedido por outro motivo qualquer, é a forma mais comum de descobrir um colesterol elevado. A pior forma é a sala de emergência.

Entre esses dois extremos existe um intervalo que pode durar anos, e é justamente nesse intervalo que mora o problema. O colesterol alto não causa dor, não aperta o peito, não tira o sono. Ele simplesmente se acumula, devagar, sem avisar.

Esse caráter silencioso explica um dado que preocupa cardiologistas e endocrinologistas. Estimativas da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular apontam que mais de 40% dos brasileiros têm colesterol elevado, e cerca de metade dessas pessoas não sabe disso.

A Pesquisa Nacional de Saúde, conduzida pelo IBGE, mostra ainda que um em cada cinco brasileiros nunca fez um exame para verificar as próprias taxas.

Em uma região como os Campos Gerais, onde boa parte da população adulta concilia trabalho, rotina puxada e pouco tempo para consultas preventivas, esse retrato tem peso concreto.

Conforme explica Dr. Camila Farias, endocrinologista que trata colesterol alto em Goiânia, o paciente que adia o check-up não sente que está adiando nada, porque não há sintoma para cobrar a visita ao médico.

O que o colesterol faz enquanto ninguém olha

O colesterol é uma gordura necessária ao organismo. Ele participa da formação das células, da produção de hormônios e de vitaminas. O problema começa quando uma de suas frações, o LDL, conhecido como colesterol ruim, passa a circular em excesso.

O LDL elevado se deposita nas paredes internas das artérias. Com o tempo, esses depósitos formam placas de gordura que estreitam e endurecem os vasos, em um processo chamado aterosclerose. O sangue passa a encontrar resistência onde antes corria livre.

Quando uma dessas placas obstrui uma artéria do coração, ocorre o infarto. Quando o bloqueio acontece em um vaso que irriga o cérebro, o resultado é o acidente vascular cerebral, o AVC. Nenhum dos dois eventos avisa com antecedência. Eles são, na prática, a primeira manifestação visível de um problema que vinha se construindo há muito tempo.

A conta dessa progressão silenciosa aparece nos números. Dados do DATASUS e da Organização Mundial da Saúde relacionam o colesterol alto a mais de 300 mil infartos e cerca de 100 mil AVCs isquêmicos por ano no Brasil. As doenças do aparelho circulatório respondem por cerca de 400 mil mortes anuais no país.

No Paraná, o coração é a principal causa de morte

O cenário paranaense acompanha o nacional e, em alguns recortes, o supera. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde, as doenças do aparelho circulatório são a principal causa de óbitos entre as mulheres no estado. Só no último ano, mais de 10 mil paranaenses morreram por condições ligadas ao coração e à circulação, grupo que inclui infarto, hipertensão e AVC.

Estudos epidemiológicos indicam ainda que a mortalidade por doenças cardiovasculares tende a ser proporcionalmente maior nas regiões Sul e Sudeste, em parte por características da população, em parte por fatores de estilo de vida.

O frio dos Campos Gerais, que reduz a disposição para atividade física durante boa parte do ano, e uma alimentação tradicionalmente rica em gorduras compõem um ambiente que merece atenção.

A boa notícia é que a Secretaria estadual reforça um ponto central: essas mortes podem ser evitadas ou controladas com diagnóstico precoce e acompanhamento regular. A frase resume tudo. O que falta não é tratamento. O que falta é descobrir o problema a tempo.

O exame que deveria ser rotina

A avaliação do colesterol é simples. Um exame de sangue mede o colesterol total e suas frações, entre elas o LDL, o HDL e os triglicerídeos. O resultado mostra com clareza se há alteração e qual o tamanho dela.

A recomendação geral é que adultos verifiquem as taxas periodicamente, mesmo sem qualquer queixa. Pessoas com histórico familiar de problemas cardíacos, com diabetes, hipertensão, sobrepeso ou que passaram dos 40 anos têm motivos adicionais para não deixar o exame de lado.

Há um ponto que costuma passar despercebido. O colesterol alto nem sempre é resultado apenas de alimentação. Distúrbios hormonais, alterações da tireoide, fatores genéticos e o uso de certos medicamentos também elevam as taxas.

É por isso que, diante de um resultado alterado, vale procurar um médico especialista em colesterol e triglicerídeos capaz de investigar a causa real do problema, e não apenas tratar o número isolado. O endocrinologista, em especial, avalia como os hormônios influenciam o metabolismo das gorduras, algo que faz diferença concreta na definição do tratamento.

A hipercolesterolemia familiar é um exemplo claro de quando essa investigação importa. Trata-se de uma condição genética que eleva o LDL desde cedo e aumenta de forma significativa o risco de eventos cardíacos precoces. Sem teste específico, ela pode passar décadas sem ser identificada.

Por que o diagnóstico chega tarde

A demora para descobrir o colesterol alto não tem uma única explicação. Ela combina três fatores que se reforçam. O primeiro é a ausência de sintomas. Sem dor, sem desconforto, sem sinal de alerta, não existe gatilho natural que leve a pessoa ao consultório. O corpo não cobra.

O segundo é cultural. Muita gente ainda associa a ida ao médico ao momento em que algo já está errado. A medicina preventiva, que age antes do problema aparecer, ainda disputa espaço com o hábito de procurar atendimento só quando a situação aperta.

O terceiro é a falsa sensação de segurança. Uma pessoa magra, jovem e sem queixas pode imaginar que está livre do risco. Mas o colesterol alto não escolhe biotipo. Fatores genéticos e hormonais atingem quem aparenta plena saúde, e os xantelasmas, pequenos depósitos de gordura que surgem na pele, costumam aparecer só quando o quadro já está avançado.

O resultado dessa combinação é o que os médicos veem todos os dias no consultório: pacientes que chegam com um quadro já instalado, muitas vezes depois de um evento grave que poderia ter sido evitado.

Reportagens e levantamentos recentes vêm mostrando esse mesmo padrão, em que os brasileiros descobrem colesterol alto muito tarde, quando a placa de gordura já estreitou as artérias de forma difícil de reverter.

O que dá para fazer antes que o problema apareça

A prevenção do colesterol alto não depende de nada complexo. Ela começa por escolhas de rotina e por um exame que custa pouco e demora minutos.

A alimentação tem papel central. Reduzir o consumo de gorduras saturadas e de produtos ultraprocessados, presentes em frituras, embutidos e industrializados, ajuda a manter as taxas em ordem. A atividade física regular eleva o HDL, a fração que protege as artérias, e contribui para o equilíbrio metabólico como um todo.

Quando a mudança de hábitos não é suficiente, e em parte dos casos ela realmente não é, o acompanhamento médico define a estratégia. O tratamento pode incluir medicação, mas o ponto de partida é sempre entender por que aquele colesterol subiu. Causas hormonais, metabólicas e genéticas exigem condutas diferentes, e é o especialista quem faz essa leitura.

O recado que atravessa todos os dados é o mesmo. O colesterol alto é uma das poucas ameaças sérias à saúde que se deixa flagrar com facilidade, desde que alguém peça o exame. Ele não dói, não avisa e não espera. Mas também não se esconde de quem decide procurar.

Em uma região onde as doenças do coração lideram as estatísticas de mortalidade, marcar um exame de sangue antes que qualquer sintoma apareça talvez seja a decisão de saúde mais simples, e mais subestimada, que um adulto pode tomar neste ano.

Boca no Trombone
Autoria
Boca no Trombone
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