Debate cancelado vira guerra política entre Lula e Flávio às vésperas da eleição
Globo alegou insegurança jurídica após decisões que alteraram as regras do encontro; petistas comemoraram entrevista no Flow, enquanto candidato do PL acusou favorecimento ao presidente

O cancelamento do debate presidencial da TV Globo, previsto para a noite de quinta-feira (1º), ampliou o confronto entre as campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) na reta final das eleições. A emissora suspendeu o encontro após decisões judiciais que modificaram as regras e a desistência de Flávio. Lula já havia informado que não compareceria e participou do Flow Podcast no mesmo horário. O primeiro turno acontece neste domingo, 4 de outubro.
Enquanto aliados do presidente avaliaram o desfecho como favorável à campanha petista, Flávio criticou as determinações judiciais e acusou Lula de evitar o confronto direto. Outros presidenciáveis e entidades de imprensa também reagiram ao cancelamento.
Por que a Globo cancelou o debate
A suspensão ocorreu depois de duas decisões que interferiram nas condições previstas para o programa. A ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), proibiu a exibição de um púlpito vazio para representar a ausência de Lula. A determinação também impediu que os participantes dirigissem perguntas ao candidato ausente. Segundo a fundamentação, esse formato poderia criar desequilíbrio ao permitir referências a um adversário sem possibilidade de resposta simultânea no debate.
Flávio anunciou sua desistência após a divulgação da decisão. O candidato do PL havia chegado a ensaiar perguntas que pretendia fazer ao púlpito reservado ao presidente. Pouco depois, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a inclusão de Renan Santos, candidato do partido Missão, entre os participantes.
A Globo informou que as determinações recebidas na última hora alteraram regras previamente acordadas com as campanhas e provocaram insegurança jurídica. Com as mudanças e as ausências, a emissora decidiu cancelar o encontro.
Lula defende entrevista no Flow
Lula manteve a participação no Flow Podcast, apresentado por Igor Coelho. Durante a entrevista, brincou sobre sua preferência pelo apresentador ao explicar a escolha de não comparecer à Globo.
O presidente afirmou considerar os debates pouco produtivos e criticou o espaço destinado a provocações e intervenções voltadas à repercussão nas redes sociais. Na avaliação dele, os encontros deveriam concentrar a discussão nas necessidades da população, no futuro do país e na soberania brasileira.
Lula também questionou o modelo que reúne candidatos com níveis muito diferentes de apoio nas pesquisas. Usando uma comparação com as divisões do futebol, sugeriu uma seleção dos participantes conforme o desempenho eleitoral.
Ao apresentar o argumento, mencionou como exemplo uma disputa entre alguém com 49% e outro com 1%. Os números foram usados pelo presidente na defesa de sua proposta para o formato dos debates.
Flávio acusa censura e cobra confronto
Após desistir do programa, Flávio Bolsonaro realizou uma transmissão ao vivo e afirmou que a decisão sobre o púlpito vazio representava censura. O candidato acusou Lula de recorrer a pessoas próximas no Judiciário para interferir no encontro, sem identificar os supostos envolvidos.
Flávio também disse que havia chamado o presidente para debater em mais de uma ocasião e voltou a cobrar um confronto direto. Durante a transmissão, classificou o episódio como revoltante e pediu aos eleitores que comparecessem às urnas no domingo.
As acusações de favorecimento foram feitas pelo candidato do PL. O material apresentado não traz comprovação de articulação entre Lula e os ministros responsáveis pelas decisões.
A transmissão reuniu Pablo Marçal, Nikolas Ferreira (PL-MG), Carlos Bolsonaro (PL-SC), Tereza Cristina e Deltan Dallagnol (Novo-PR).
Carlos Bolsonaro, irmão de Flávio e candidato ao Senado por Santa Catarina, criticou o que classificou como interferência do STF na eleição. Eduardo Bolsonaro, que mora nos Estados Unidos, também atacou Lula nas redes sociais pela entrevista no horário em que o debate estava previsto.
Campanha petista comemora repercussão
Aliados de Lula consideraram que a desistência de Flávio e o cancelamento reforçaram o acerto da escolha pelo Flow. A audiência digital da entrevista também foi celebrada pela campanha.
O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, ironizou a ausência de Flávio em uma publicação no X, sugerindo que até o adversário queria acompanhar Lula no podcast.
O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, compartilhou trechos da entrevista e destacou sua repercussão nas plataformas digitais.
A reportagem enviada informa que a entrevista ultrapassou 1,6 milhão de espectadores, enquanto a transmissão de Flávio não havia chegado a 600 mil no recorte citado. O texto não especifica o momento da aferição nem a metodologia dessa comparação.
A campanha petista já trabalhava com a possibilidade de uma desistência de Flávio, especialmente diante da eventual participação de Renan Santos, que tem feito críticas ao candidato do PL.
Renan já havia provocado os dois adversários
Embora esteja no campo da direita, Renan Santos mantém uma postura de confronto com Flávio Bolsonaro.
No debate da Band realizado em 23 de agosto, ao qual Lula e Flávio também não compareceram, o candidato do Missão exibiu duas fraldas descartáveis com os nomes dos adversários..
Após obter autorização judicial para participar do encontro da Globo, Renan não entrou na emissora e convidou Flávio para debater em um bar.
Outros presidenciáveis criticam suspensão
O cancelamento também foi criticado pelos demais candidatos. Romeu Zema (Novo) afirmou que a suspensão representava uma perda para a democracia.
Ronaldo Caiado (PSD) responsabilizou Lula pelo episódio e classificou o desfecho como um ataque à democracia. Augusto Cury (Avante) criticou tanto o presidente quanto Flávio pela ausência.
As manifestações ocorreram no encerramento da campanha para o primeiro turno, quando os candidatos buscavam apresentar seus últimos argumentos aos eleitores.
Entidades de imprensa contestam decisões
A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), a Associação Nacional de Jornais (ANJ) e a Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner) divulgaram uma nota conjunta em reação às medidas judiciais.
As entidades classificaram as decisões como uma agressão à liberdade de imprensa e afirmaram que as mudanças prejudicaram o acesso dos cidadãos às propostas dos candidatos convidados para o debate.
























