Sentar no carro e precisar levantar a perna com a mão para posicionar o pé nos pedais. Calçar uma meia pela manhã e perceber que o movimento passou a exigir esforço. Cruzar as pernas ao sentar e sentir um desconforto na virilha que, semanas antes, não existia.
Para muitos pacientes, esses sinais passam despercebidos por meses ou anos. São atribuídos ao cansaço, à postura, ao peso extra acumulado nos últimos invernos. Raramente são associados à articulação do quadril, que costuma ser lembrada apenas quando a dor já se tornou intensa e constante.
O problema é que, quando a dor se manifesta de forma incapacitante, a articulação já passou por um processo de desgaste que poderia ter sido interrompido em estágios iniciais.
A artrose de quadril, principal causa de rigidez e limitação de movimento nessa região, evolui de maneira silenciosa e costuma ser diagnosticada apenas quando o paciente procura ajuda médica com dor forte, claudicação e grande dificuldade para realizar tarefas cotidianas.
Uma doença que atinge milhões e demora a ser identificada
De acordo com dados do Ministério da Saúde, a artrose de quadril atinge cerca de 10 milhões de brasileiros. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a partir dos 60 anos, 10% dos homens e 18% das mulheres convivem com osteoartrite sintomática.
A prevalência aumenta com a idade: em pessoas acima dos 65 anos, 85% apresentam evidência radiológica da doença em pelo menos uma articulação.
No Paraná, o cenário tem particular relevância. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE, indicam que o número de pessoas com 60 anos ou mais cresceu 55,42% no estado entre 2012 e 2025, passando de 1,28 milhão para 1,98 milhão de habitantes.
O Paraná é hoje o quinto estado mais envelhecido do Brasil, com projeções indicando que, já em 2027, haverá mais idosos do que crianças e adolescentes com menos de 15 anos.
Ponta Grossa acompanha esse movimento de forma acentuada. A cidade tem 358 mil habitantes, dos quais mais de 52 mil são idosos, o equivalente a 14,6% da população, segundo dados divulgados quando o município recebeu o título de Cidade Amiga da Pessoa Idosa, concedido pela OMS.
A idade média da população ponta-grossense deve subir de 34 para 42 anos até 2050, com o segmento acima de 65 anos crescendo a uma taxa de 3,71% ao ano. Esse movimento demográfico coloca a saúde articular no centro das preocupações de médio prazo.
Como a articulação do quadril falha sem avisar
O quadril é uma articulação do tipo bola e soquete. A cabeça do fêmur encaixa no acetábulo, parte da bacia que funciona como cavidade de recepção. Entre essas superfícies há cartilagem, que amortece o movimento e permite que a perna gire, flexione e se estenda sem atrito. Quando essa cartilagem se desgasta, o contato direto entre os ossos provoca dor, inflamação e perda gradual de amplitude de movimento.
Existem duas formas principais de artrose de quadril. A primária, sem causa definida, está ligada sobretudo ao envelhecimento e ao histórico familiar. A secundária decorre de alterações estruturais, como a displasia do desenvolvimento do quadril, o impacto femoroacetabular, sequelas de fraturas, necrose avascular da cabeça femoral e doenças da infância como a de Legg-Calvé-Perthes. Em pacientes mais jovens, essas causas secundárias respondem por uma parcela significativa dos casos que avançam para cirurgia.
O sintoma inicial costuma ser uma dor discreta na virilha, que pode irradiar para a parte frontal da coxa e, em alguns casos, chegar ao joelho. Aparece em movimentos específicos: levantar de uma cadeira baixa, sair do carro, começar a caminhar depois de um período sentado.
“Com o avanço da doença, outras limitações entram em cena. A dificuldade para calçar meias e sapatos é uma das queixas mais frequentes no consultório. Cortar as unhas dos pés, entrar na banheira, cruzar as pernas para amarrar o cadarço e até subir no ônibus passam a exigir adaptações”, conta Dr. Tiago Bernardes, médico do quadril em Goiânia.
Os movimentos que denunciam o problema
A rigidez matinal é outro sinal importante. Muitos pacientes relatam que, ao se levantar da cama, precisam de alguns minutos para que o quadril responda adequadamente.
Essa sensação de travamento nos primeiros passos costuma melhorar com a movimentação, o que faz o paciente acreditar que não há problema. A mesma rigidez reaparece depois de longos períodos sentados, durante uma viagem de carro ou após uma tarde no escritório, por exemplo.
A limitação para cruzar as pernas merece atenção especial porque combina três movimentos que o quadril precisa executar simultaneamente: flexão, rotação externa e abdução.
Quando a articulação está comprometida, qualquer um desses movimentos pode estar restrito. O paciente percebe que consegue colocar o tornozelo sobre o joelho oposto apenas com auxílio das mãos. Em estágios mais avançados, o movimento se torna impossível.
A dificuldade para calçar os sapatos também reflete perda de mobilidade. Flexionar o tronco enquanto o quadril faz a flexão profunda exige amplitude completa da articulação.
Quando essa combinação falha, o paciente começa a sentar, cruzar a perna sobre o joelho oposto e calçar o sapato com o pé elevado. É uma adaptação tão automática que muitos não percebem que deixaram de fazer o movimento natural há anos.
Nas mulheres, o problema aparece com frequência maior. Estudos epidemiológicos brasileiros apontam que o perfil mais comum do paciente submetido à artroplastia de quadril é o de mulheres com idade média de 60 anos, com sobrepeso e, muitas vezes, hipertensão arterial.
A combinação de excesso de peso, sedentarismo e adiamento na busca por tratamento acelera o desgaste da articulação. Procurar um ortopedista de quadril nas primeiras semanas em que os sintomas passam a interferir nas atividades diárias é o caminho que separa o tratamento conservador do cirúrgico.
Exames e diagnóstico: o que é preciso verificar
O diagnóstico da artrose de quadril começa pela consulta clínica. O especialista avalia a história dos sintomas, examina a mobilidade do quadril em diferentes planos de movimento, testa a força muscular e pesquisa pontos dolorosos.
A radiografia simples da pelve e da articulação do quadril é o exame de imagem mais utilizado. Ela permite identificar o estreitamento do espaço articular, a presença de osteófitos, a esclerose óssea subcondral e o grau geral de desgaste.
A tomografia computadorizada é indicada em casos específicos, sobretudo para planejamento cirúrgico. A ressonância magnética entra em cena quando há suspeita de outras causas de dor, como lesões do lábio acetabular, necrose avascular da cabeça femoral ou processos inflamatórios envolvendo tendões e bursas.
A combinação entre exame clínico bem feito e exame de imagem adequado permite ao médico definir o estágio da doença e a estratégia de tratamento mais apropriada para cada paciente.
Nem toda rigidez ou dor no quadril é sinal de artrose. Bursite trocantérica, tendinopatia glútea, impacto femoroacetabular e lesões musculares podem produzir sintomas parecidos e exigem tratamentos distintos.
A avaliação especializada é o que permite fazer essa diferenciação e evitar condutas inadequadas, como o uso prolongado de anti-inflamatórios sem investigação da causa ou o início de fisioterapia sem direcionamento específico.
Tratamento conservador: a janela que muitos perdem
Nem todo caso de artrose exige cirurgia. Em fases iniciais e intermediárias, o tratamento conservador costuma trazer bons resultados. Ele combina fisioterapia direcionada, com foco no fortalecimento dos glúteos, quadríceps e musculatura do tronco, controle de peso, ajuste das atividades físicas e, quando necessário, uso de analgésicos e anti-inflamatórios prescritos de forma criteriosa. Em casos selecionados, infiltrações com ácido hialurônico podem ajudar na lubrificação articular e no alívio dos sintomas.
A perda de peso tem efeito direto e mensurável sobre o quadril. A articulação suporta, durante a marcha, cargas que podem chegar a três ou quatro vezes o peso corporal.
Reduzir alguns quilos significa retirar diversos quilos de pressão sobre a cartilagem a cada passo. Em pacientes com sobrepeso, essa medida simples costuma ser o fator que mais contribui para o alívio da dor no início do tratamento.
O fortalecimento muscular tem papel igualmente relevante. Músculos bem treinados protegem a articulação, absorvem parte do impacto e corrigem padrões de marcha que, mantidos por anos, aceleram o desgaste.
O problema é que muitos pacientes chegam ao consultório com a musculatura atrofiada, justamente porque reduziram a atividade física para evitar a dor. Reverter esse quadro exige paciência, orientação profissional e, muitas vezes, um período inicial de fisioterapia antes do retorno a exercícios mais exigentes.
Quando a cirurgia passa a ser a melhor alternativa
O ponto de virada acontece quando a dor persiste apesar do tratamento conservador, quando o exame de imagem mostra contato direto entre os ossos e quando o paciente perde qualidade de vida de forma significativa.
Nessa fase, a artroplastia total de quadril, procedimento que substitui a articulação por uma prótese, passa a ser a indicação mais eficaz. A revista The Lancet chegou a classificar a artroplastia de quadril como a cirurgia ortopédica do século, pelos seus elevados índices de sucesso e satisfação entre os pacientes.
Os números no Brasil confirmam a expansão do procedimento. Dados do DATASUS indicam que, entre 2012 e 2021, o Sistema Único de Saúde registrou 251.413 artroplastias de quadril em todo o país. A Região Sudeste concentrou 50,8% das cirurgias, com São Paulo e Minas Gerais respondendo pela maior parcela.
Em 2024, o SUS registrou recorde de cirurgias eletivas, com mais de 13,6 milhões de procedimentos, um crescimento de 10,8% em relação ao ano anterior, segundo a Agência Brasil. A técnica mais utilizada no período analisado foi a artroplastia total não cimentada, responsável por 33,1% dos procedimentos, seguida da artroplastia parcial, com 29,2%.
A evolução dos implantes permitiu que pacientes mais jovens e ativos fossem operados com boas perspectivas de longo prazo. Superfícies de cerâmica combinadas com polietileno de alta resistência reduziram o desgaste e a necessidade de revisão.
Estudos de acompanhamento mostram que mais da metade das próteses de quadril pode ultrapassar 25 anos de uso, a depender do tipo de implante, da técnica empregada e do perfil do paciente.
O protocolo de recuperação também mudou: na maioria dos casos, o paciente levanta da cama e dá os primeiros passos no dia seguinte à cirurgia, com alta hospitalar em poucos dias e retorno às atividades cotidianas em dois a três meses.
A importância do especialista certo para cada caso
A ortopedia do quadril é uma subespecialidade com particularidades técnicas relevantes. O planejamento da cirurgia, a escolha do tipo de implante, a definição da via de acesso e a condução da reabilitação influenciam diretamente o resultado funcional a longo prazo. Por isso, a escolha do profissional faz diferença concreta no desfecho do tratamento.
Cidades como Goiânia vêm se consolidando como polos de referência em cirurgia ortopédica no Centro-Oeste, com estrutura hospitalar qualificada e concentração de profissionais com formação específica em articulações como o quadril.
Pacientes que enfrentam indicação cirúrgica costumam buscar avaliação em centros que reúnam equipe multidisciplinar, incluindo cirurgião, fisioterapeutas e outros profissionais envolvidos na recuperação.
Consultar os melhores especialistas em quadril disponíveis em cada região, verificando formação, vínculos institucionais e experiência na subespecialidade, é um passo que o paciente pode fazer antes mesmo de marcar a consulta.
A verificação de credenciais é parte do processo. Informações sobre o registro no Conselho Regional de Medicina, o Registro de Qualificação de Especialista e a filiação a sociedades como a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia e a Sociedade Brasileira de Quadril estão disponíveis em bases públicas e ajudam o paciente a distinguir o ortopedista geral do especialista com formação dedicada. Quando a opção cirúrgica entra em discussão, essa distinção tem peso determinante.
O que não se deve adiar
A artrose de quadril progride mesmo enquanto o paciente se adapta a ela. A mudança na forma de caminhar, o abandono de atividades antes rotineiras e a tolerância progressiva à dor são formas de compensação que mascaram o avanço da doença.
Quando o diagnóstico finalmente chega, a articulação já perdeu parte significativa da sua cartilagem e algumas janelas de tratamento conservador já se fecharam.
O envelhecimento acelerado da população paranaense e de Ponta Grossa em particular tende a ampliar, nos próximos anos, a demanda por atendimento ortopédico especializado. Mais pessoas vivendo mais tempo significa mais articulações sujeitas ao desgaste natural e mais indicações de tratamento.
Antecipar esse cuidado, em vez de adiá-lo até que a dor se torne incapacitante, é a decisão mais prática disponível. Sinais como dificuldade para cruzar as pernas, para calçar sapatos ou para cortar as unhas dos pés não são parte inevitável do envelhecimento.
São pedidos de avaliação que a articulação envia com bastante antecedência, e que costumam ser ignorados até que deixem de poder ser.


















