Em uma sessão solene realizada na Assembleia Legislativa do Paraná no fim de setembro de 2025, mais de 200 influenciadores digitais paranaenses subiram ao Plenário para receber uma homenagem inédita.
Entre eles, Alisson Spitzner, criador de Ponta Grossa que ganhou audiência publicando receitas e curiosidades regionais. A presença dele no evento, ao lado de nomes de Curitiba e do litoral, dizia algo que os números do mercado já apontavam: o influenciador digital deixou de ser uma figura concentrada nas capitais e passou a se espalhar pelo interior, com o Instagram funcionando como o principal ponto de partida.
O movimento tem escala nacional. Levantamentos recentes apontam mais de 14 milhões de criadores de conteúdo no Brasil, e a estimativa da plataforma Influency.me é que apenas entre março de 2024 e março de 2025 o volume de criadores ativos tenha saltado de 1,2 milhão para 2 milhões, um avanço de 67% em doze meses.
Boa parte desse crescimento aconteceu fora do eixo Sudeste, em estados que antes apareciam apenas como audiência. O Paraná, com sua Lei nº 21.968/2024 que criou a Semana Estadual do Influenciador Digital, foi um dos primeiros a institucionalizar a figura.
A pergunta que se popularizou nos últimos dois anos não é mais se vale a pena começar, mas como começar sem cometer os erros que já travaram a carreira de tantos criadores que tentaram antes.
Por que o Instagram virou a primeira plataforma de quem quer começar
A escolha pelo Instagram como ponto de entrada tem explicação prática. A rede tem mais de 134 milhões de usuários ativos no Brasil, segundo dados consolidados em 2024 pela Hotmart com base em relatórios de mercado, o que significa que praticamente qualquer público-alvo está disponível dentro da plataforma.
Para um morador dos Campos Gerais que decida criar um perfil sobre gastronomia regional, agropecuária familiar ou turismo no Buraco do Padre, o público potencial está a um clique de distância.
O segundo motivo é o formato. Os Reels, vídeos curtos lançados como resposta direta ao TikTok, mudaram a regra de distribuição da rede. Dados do Social Insider citados em análises do setor apontam que os Reels concentram cerca de 31,6% do engajamento total no Instagram, e o levantamento da Hotmart sobre desempenho da plataforma mostra que 55% das visualizações desse formato vêm de pessoas que ainda não seguem o perfil do criador.
Isso significa que um vídeo bem feito pode chegar a milhares de pessoas mesmo quando o autor tem poucos seguidores, algo que era praticamente impossível na lógica de feed que dominou a plataforma até 2020.
O terceiro motivo é o engajamento. Relatórios da Later e da Fohr apontam que contas menores, na faixa entre 1 mil e 100 mil seguidores, costumam ter taxas médias de engajamento de cerca de 2% no feed e em postagens patrocinadas, contra valores entre 0,8% e 1,3% nas contas de macro e mega influenciadores.
A leitura prática é simples: quem está começando tem, em proporção, um público mais atento e mais disposto a interagir do que os perfis de milhões de seguidores.
O perfil de quem está entrando agora
O Censo de Criadores produzido pela Wake Creators traça um retrato claro de quem é a nova safra de influenciadores brasileiros. Cerca de 71% dos criadores pertencem à Geração Z, com idade entre 18 e 26 anos, enquanto os Millennials respondem por 24%. A região Sudeste concentra 56% do total, mas o Sul aparece logo em seguida com 14%, fatia relevante considerando o tamanho populacional da região.
O dado que mais impressiona, porém, é o de monetização. Segundo relatório da Favikon citado em reportagens recentes do setor, apenas 22% dos criadores brasileiros conseguem viver diretamente do conteúdo em 2025.
Os outros 78% atuam como microinfluenciadores que combinam a renda do digital com outras atividades profissionais ou ainda estão na fase de construção de audiência. Esse retrato muda completamente a expectativa de quem está pensando em começar: a regra do mercado não é virar Virginia Fonseca, é construir um nicho consistente que sustente parcerias regulares.
Empresas locais já perceberam essa lógica. Pesquisa da EY-Parthenon apontou que 78% dos consumidores brasileiros confiam em recomendações feitas por criadores de conteúdo, e o levantamento Data-Marketing Leaders mostrou que 75% das marcas no país já utilizam marketing de influência em suas estratégias, um avanço de 10 pontos percentuais em relação a 2024.
A consequência direta dessa adoção é que microinfluenciadores regionais, com público de bairro ou de cidade, viraram ativos comerciais procurados por restaurantes, pet shops, clínicas e lojas de roupa que antes só anunciavam em rádio ou em jornais impressos.
O problema da prova social no início da jornada
Existe um detalhe técnico que quem começa nas redes sociais descobre rápido: o Instagram funciona com uma camada de prova social que define quem entra ou não na primeira impressão.
Um perfil com 87 seguidores e 12 curtidas em cada post transmite uma mensagem diferente de um perfil com 8 mil seguidores e 600 curtidas, mesmo quando o conteúdo é o mesmo. Para o algoritmo, a diferença influencia distribuição. Para o visitante humano, ela define se o perfil parece ativo ou abandonado.
Esse é o ponto onde muitos criadores travam. O conteúdo bom existe, a edição melhora a cada semana, mas o crescimento orgânico nos primeiros meses costuma ser lento e desestimulante. O caminho que alguns adotam, e que precisa ser entendido com cuidado, é dar um empurrão inicial nas métricas para sair da estaca zero.
Existem serviços que permitem comprar curtidas no Instagram com PIX de forma rápida, ajustando a percepção de engajamento de um perfil que ainda está se firmando. O ponto que importa para o criador iniciante é tratar isso como reforço pontual de prova social, não como substituto da construção real de audiência.
A regra prática que circula entre criadores experientes é direta: o conteúdo precisa ser sustentado por trabalho contínuo, posicionamento claro e relação com a comunidade.
Sem essa base, qualquer ajuste de métrica é cosmético e dura pouco. Com essa base, o reforço inicial pode acelerar a fase mais difícil, que é a de fazer o público estranho dar a primeira chance ao perfil.
O peso dos Reels na descoberta
Se há um formato que define o sucesso de um criador iniciante hoje, ele se chama Reels. A lógica do feed tradicional, que dependia de quem já seguia o perfil, foi substituída por uma distribuição que privilegia tempo de retenção e taxa de conclusão.
Vídeos com bom desempenho nos primeiros três segundos têm chance significativamente maior de aparecer para públicos que nunca ouviram falar do criador, segundo análises da Hotmart sobre o algoritmo da plataforma.
Para quem está começando, isso muda a dinâmica de planejamento. Em vez de pensar em fotos posadas, legenda longa e horário ideal, o criador precisa pensar em ganchos visuais nos primeiros segundos, em corte rápido, em áudio em alta nos trends e em encerramento que faça o espectador querer rever o vídeo.
Boa parte do crescimento de criadores como Diogo Tiba, paranaense que acumulou milhões de seguidores no TikTok e no Instagram com novelas curtas, veio dessa lógica de retenção.
O desafio é que a métrica que mais pesa na distribuição de Reels é a quantidade de visualizações nas primeiras horas. Vídeos que estouram nesse período inicial recebem mais entrega; vídeos que ficam parados saem da fila. Por isso, alguns criadores adotam estratégias de impulso inicial para tirar o vídeo do ponto morto.
Plataformas que permitem comprar visualizações para Reels entram nessa lógica como uma forma de dar tração nas primeiras horas, ajudando o conteúdo a entrar no fluxo de distribuição da rede. Como em qualquer ferramenta, o uso eficiente depende de combinar com conteúdo que realmente prenda atenção.
Como o nicho regional virou vantagem competitiva
Uma mudança interessante dos últimos dois anos foi a valorização do conteúdo regional. Em 2020, a tendência era criar conteúdo genérico que servisse para qualquer público brasileiro.
Em 2025, o cenário se inverteu: marcas regionais procuram criadores que falem com o público específico de uma cidade ou de uma região, e plataformas como o próprio Instagram passaram a privilegiar conteúdo localizado nas buscas e nas sugestões.
Isso abre espaço para criadores dos Campos Gerais que queiram trabalhar com gastronomia paranaense, com turismo em Vila Velha, com agronegócio familiar ou com comércio de bairro em Ponta Grossa.
O nicho geográfico funciona como filtro automático: o público que segue não está disperso pelo país, está concentrado na região, e isso aumenta o valor do criador para anunciantes locais.
A Octoshop, marketplace curitibano voltado para criadores de conteúdo, faturou R$ 19 milhões em 2024 vendendo equipamentos de fotografia e produção de vídeo, com expectativa de crescer 20% em 2025.
O dado é uma evidência concreta de que o setor de creators no Paraná deixou de ser uma promessa para virar mercado. Quando uma empresa fatura quase R$ 20 milhões só vendendo câmera, microfone e iluminação para criadores, o que se está medindo é a profissionalização de um setor que cresceu fora do radar.
O que separa quem persiste de quem abandona
Pesquisas com criadores que conseguiram passar da fase inicial mostram um padrão claro. Os que persistem têm rotina de produção, calendário editorial e métrica acompanhada com regularidade. Os que abandonam costumam apostar em postagens esporádicas, em formatos sem foco e em expectativa de crescimento que não corresponde ao tempo real do mercado.
A consultoria mLabs, em análise de comportamento de instagrammers profissionais publicada em 2026, lista cinco atividades que separam o criador amador do criador que vive do conteúdo: planejamento de pautas alinhadas ao público e à marca pessoal, produção e edição de fotos e vídeos para os diferentes formatos da plataforma, criação de legendas com gatilhos de engajamento, análise sistemática de métricas como alcance, retenção e taxa de salvamento, e monitoramento de DMs e comentários para manter a comunidade ativa.
A diferença entre quem segue essa rotina e quem trata o Instagram como hobby aparece nos números: o primeiro grupo dobra ou triplica a base de seguidores em um ano; o segundo costuma estagnar entre 500 e 2 mil contatos sem nunca atravessar o limiar que torna o perfil interessante para parcerias comerciais.
O que vem pela frente
A previsão da Goldman Sachs é que a creator economy global movimente US$ 480 bilhões até 2027, quase o dobro do volume atual. No Brasil, o setor já movimenta cerca de R$ 4 bilhões por ano segundo dados compilados pela Forbes Brasil, e a tendência é de aceleração com a entrada de marcas regionais no marketing de influência.
Para quem está pensando em começar nos Campos Gerais ou em qualquer cidade do interior do Paraná, o cenário tem dois lados. De um, a janela de oportunidade está aberta como nunca, com público-alvo conectado, marcas dispostas a contratar microinfluenciadores e plataformas que distribuem conteúdo de forma mais democrática do que faziam há cinco anos.
De outro, a competição cresceu e o tempo de tolerância do espectador caiu: três segundos para prender atenção, sete dias de inconsistência para perder ritmo, três meses sem publicação para um perfil ser esquecido.
A história de quem está começando agora vai depender menos da sorte e mais da decisão de tratar o Instagram como o que ele virou: uma porta de entrada profissional para um mercado que já não cabe mais no rótulo de hobby.


















