Pare e pense!
Pare e pense como o excesso de documentos e rotinas pode prejudicar a gestão de segurança do trabalho e por que a análise crítica é essencial.

Aprendemos que um dos grandes problemas de uma área técnica ocorre quando as ferramentas passam a ser mais importantes do que a gestão. Junto a isso geralmente vem um processo de omissão das pessoas em relação às dificuldades, passando a cumprir rotinas e nada mais do que isso. O grande problema é que aquela rotina pode estar errada, mal dimensionada ou qualquer coisa do gênero e, se não houver uma reação por parte do especialista, só descobriremos a necessidade de melhoria a um custo muito alto.
Uma das características do profissional especializado é a capacidade de análise crítica. Um não especialista olha um processo sem maiores conhecimentos e detalhes, mas o especialista deve sempre enxergar mais além. Infelizmente em nosso país temos perdido esta referência e por esta razão os entulhos, sejam eles de ordem técnica ou burocrática, vêm tomando o espaço das gestões. Na prática isso quer dizer que a cada dia fazemos mais papéis e trabalhamos menos, cumprimos rotinas e deixamos de lado a realização da prática que de fato agrega valor.
Isso é ruim para todos. Primeiro para a empresa que não recebe qualquer contribuição efetiva para a solução dos problemas, paga e não leva, ganha apenas uma porção de papéis que, olhando bem de perto, não têm qualquer serventia para o negócio em si. Em segundo lugar, para o profissional que se submete a um processo de atrofia deixando de ser um gestor voltado para soluções para ser um emissor de documentos. Os efeitos deste processo atingem principalmente os trabalhadores que acabam sendo expostos a situações inadequadas de trabalho enquanto os recursos que poderiam mudar este quadro são gastos para gerar uma montanha de papéis que dão a impressão de que isso ocorre.
Diante de tudo isso, penso que anda em falta na nossa área uma pergunta muito simples, mas que quando bem aplicada pode operar milagres em sistemas de gestão e carreiras profissionais: “para que serve isso que faço”?
Poderíamos chamar este questionamento de análise crítica de nosso trabalho e, mesmo que sem formalidades, vez por outra, dedicarmos um tempo para tentarmos entender a finalidade de nossas atividades. Isso com certeza nos permitiria entender inclusive como somos vistos pelas demais áreas e profissionais da organização onde atuamos. Com certeza seria muito útil para todos.
Como sugestão, comecemos pelos inúmeros programas e documentos legais que preenchemos. Obviamente eles geram trabalho e custam recursos e, sendo assim, devem ter alguma utilidade. Mas qual a finalidade deles? Para que servem? Talvez neste momento, na sua organização, não sirvam para nada – especialmente porque vêm sendo elaborados sem a noção básica de que devem estar voltados para o entendimento dos usuários e não do executor.
Um exemplo típico disso são os PGRs que ao longo dos anos foram sendo deformados pelo entendimento de que devem se prestar mais à defesa das empresas em processos do que como espinha mestra de uma base para gestão. Assim, boa parte dos PGRs tem tanta informação e complexidade que servem para quase tudo, menos como referência para que as pessoas saibam o que fazer para que a prevenção se estabeleça e siga de forma organizada.
Que tal darmos uma olhada nos quadros estatísticos? Ao longo dos anos fomos aprimorando o padrão estético e por isso são belos, mas será que são úteis? Precisamos lembrar que números por si só nada dizem, precisam ser analisados e interpretados e, mais do que isso, que a informação estatística se preste como referência para reações diante de problemas e por isso devem ser atualizadas, analisadas e informadas no menor tempo possível. Para que serve informar acidentes ocorridos 30 ou 45 dias depois? Que tipo de reação isso nos permite?
E os grandes programas de higiene para os quais conseguimos bons recursos para realizarmos o reconhecimento e avaliação? De repente temos em mãos uma quantidade e qualidade de informações de excelente nível, mas esquecemos de prever dinheiro para as adequações e correções necessárias.
E por aí deve seguir nossa análise, tentando entender e nunca é tarde demais para que serve um programa. Precisamos deixar de lado o hábito de achar que documentos devem encerrar em si todos os problemas como se papel tivesse algum poder de resolução e criação. Quanto mais coisa escrita, tenham certeza, menos gente perderá tempo lendo, menos pessoas farão sua parte ou aquilo que esperamos que façam.
Pensem também para que serve o chamado programa de DDS, que por alguém ter entendido um dia que ele deve acontecer “todos os dias”, tornou-se algo totalmente sem sentido dentro de boa parte das organizações. É visto como uma obrigação e todos sabem qual é a qualidade de algo feito sem que sua utilidade seja levada em conta…
Reflitam sobre os processos para liberação de serviços, isso é processo de prevenção ou tarde de autógrafos? O que faz a prevenção? Pessoas treinadas e conscientes ou uma coleção de assinaturas com as quais se tenta compartilhar responsabilidades e nada mais? A pergunta “para que serve” pode salvar vidas, economizar recursos e de quebra ainda garantir o emprego de muita gente.
Obrigado pela leitura e até o próximo artigo.
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