Problemas ortopédicos já impactam produtividade e saúde mental de trabalhadores brasileiros
Dores de coluna, joelho e articulações deixaram de ser apenas queixas isoladas e passaram a figurar entre as principais causas de afastamento do trabalho no país, com reflexos crescentes sobre a saúde emocional de quem convive com elas

Dores de coluna, joelho e articulações deixaram de ser apenas queixas isoladas e passaram a figurar entre as principais causas de afastamento do trabalho no país, com reflexos crescentes sobre a saúde emocional de quem convive com elas
A cena se repete em fábricas dos Campos Gerais, em escritórios de Ponta Grossa e em caminhões que cruzam diariamente a BR-376: um trabalhador levanta da cadeira com dor na lombar, outro começa a mancar depois do almoço, um terceiro evita subir escadas por causa do joelho.
Cada um lida com o desconforto do próprio jeito, quase sempre adiando a consulta. O problema é que essa rotina silenciosa já aparece nos números oficiais do país e tem virado pauta frequente entre ortopedistas, médicos do trabalho e gestores de recursos humanos.
Dados do Instituto Nacional do Seguro Social mostram que 2025 registrou mais de 4,1 milhões de afastamentos por doenças ocupacionais no Brasil, um volume 15% superior ao de 2024 e o maior patamar desde 2021. Dentro desse total, as doenças musculoesqueléticas, com destaque para lombalgia, hérnia de disco, artrose e lesões de joelho, aparecem entre as principais responsáveis.
Segundo o próprio INSS, as condições ortopédicas estão entre os motivos mais frequentes para concessão de benefícios por incapacidade, especialmente em profissionais da construção civil, da indústria, do transporte, da enfermagem e de linhas de produção.
No Paraná, a radiografia se encaixa no perfil dos Campos Gerais. A região concentra agroindústria, metalmecânica, transporte de cargas e serviços que exigem esforço repetitivo ou postura prolongada, todos fatores que aparecem com frequência nos estudos sobre dor lombar ocupacional.
Resultado: o que começa como uma dor ignorada termina, meses depois, em atestado, fisioterapia, perícia, e em muitos casos, cirurgia.
A dor que não passa deixa de ser só dor
A Pesquisa Nacional de Saúde identificou que 18,5% da população brasileira já relatava dor crônica nas costas em 2013, índice que subiu para 23,4% em 2019 e que, durante a pandemia, chegou a 33,9% em alguns recortes.
Em um estudo publicado na Revista Brasileira de Medicina do Trabalho, pesquisadores apontam que idade avançada, percepção ruim de saúde e, principalmente, presença de sintomas depressivos moderados ou graves multiplicam a chance de lombalgia e de distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho.
Esse último ponto é o que tem chamado mais atenção nos últimos anos. Uma análise publicada pela Johns Hopkins Medicine em março de 2025, reunindo 375 estudos e quase 350 mil pacientes em 50 países, concluiu que cerca de 40% dos adultos com dor crônica convivem com sintomas clinicamente significativos de depressão e ansiedade.
A pesquisa identificou transtorno depressivo maior em 37% dos pacientes e ansiedade generalizada em 17% deles, com taxas ainda mais altas entre mulheres, adultos jovens e pacientes com fibromialgia.
No Brasil, o fenômeno é conhecido há tempos. A Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor alerta que ansiedade e depressão intensificam dores crônicas e podem transformar um episódio agudo em quadro permanente.
Um levantamento do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, com mais de cinco mil moradores da região metropolitana da capital, mostrou que dores recorrentes afetavam 50% das pessoas com transtornos de humor e 45% das que conviviam com ansiedade, proporção mais que o dobro da observada na população geral.
A leitura dos especialistas é consensual: não se trata de coincidência, mas de uma relação que funciona nos dois sentidos. Quem tem dor crônica tende a desenvolver sintomas depressivos; quem convive com depressão ou ansiedade sente dor com mais intensidade e por mais tempo.
Isolamento, sedentarismo imposto pela limitação física, afastamento do trabalho e sensação de que o corpo não responde mais como antes compõem o pano de fundo.
O peso da coluna e do joelho nas estatísticas de afastamento
Como explica Dr. Ulbiramar Correia, que atua em Goiânia com foco em procedimentos de alta precisão no joelho por meio de técnicas minimamente invasivas, entre todas as queixas ortopédicas, a dor nas costas ocupa há anos o topo do ranking. A Organização Mundial da Saúde estima que a lombalgia afetou 619 milhões de pessoas em 2020, com projeção de chegar a 843 milhões em 2050.
No Brasil, entre 65% e 85% da população adulta terá pelo menos um episódio de dor lombar ao longo da vida, segundo dados compilados pela Sociedade Brasileira de Reumatologia. Em 2017, a lombalgia já era a doença que mais afastava brasileiros do trabalho, com 83,8 mil benefícios concedidos pelo INSS somente naquele ano, de acordo com levantamento citado pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho.
O joelho ocupa uma posição próxima na lista de preocupações. Dados do DATASUS mostram que as artroplastias de joelho no Sistema Único de Saúde cresceram mais de 50% no período pós-pandemia, puxadas por uma combinação de envelhecimento populacional, sedentarismo forçado durante o isolamento e acúmulo de lesões não tratadas.
A artrose, as lesões de menisco e as rupturas de ligamento cruzado anterior estão entre os diagnósticos mais frequentes em pacientes economicamente ativos. Para operadores de máquinas, motoristas, profissionais da saúde e trabalhadores da agroindústria, o joelho costuma ser a articulação que primeiro sinaliza que algo está errado.
Segundo os melhores ortopedistas de joelho no Brasil, o intervalo entre o primeiro sintoma e a primeira consulta especializada é o ponto que mais define o prognóstico. Pacientes que procuram avaliação nas primeiras semanas, com exames de imagem adequados, têm chance muito maior de tratamento conservador bem-sucedido, com fisioterapia, fortalecimento e, em alguns casos, infiltrações.
Quem adia por meses ou anos entra em um ciclo de compensação muscular, alteração de marcha e desgaste articular que pode tornar a cirurgia inevitável.
Produtividade comprometida antes mesmo do afastamento
Nem todo trabalhador com dor musculoesquelética chega a pedir licença. Muitos continuam comparecendo ao serviço, mas em ritmo reduzido, o fenômeno que os estudos chamam de presenteísmo.
Pesquisas em diferentes setores econômicos indicam que trabalhadores com dor musculoesquelética moderada ou intensa apresentam queda de desempenho que varia entre 20% e 40% em relação ao próprio rendimento habitual.
Um estudo europeu identificou redução de produtividade na ordem de 29% associada à lombalgia, valor compatível com outro levantamento suíço que apontou queda próxima de 28%.
Nos Estados Unidos, a lombalgia crônica tem custo anual estimado em US$ 635 bilhões, considerando despesas médicas diretas e perda de produtividade, segundo dados compilados no Tratado da Dor.
Custos indiretos, como afastamento, necessidade de substituição, sobrecarga de equipe e reaposentadorias precoces, costumam superar em duas a quatro vezes os custos diretos com tratamento.
No Brasil, onde parte desses gastos recai sobre o INSS e parte sobre as empresas, o efeito é duplo: o trabalhador perde renda e qualidade de vida, e a empresa perde produção, prazos e conhecimento técnico acumulado.
A Sociedade Brasileira de Reumatologia classifica a lombalgia ocupacional como a maior causa isolada de transtornos relacionados ao trabalho, incluindo absenteísmo e incapacidade total ou parcial.
Posturas incorretas, carregamento de cargas, flexões e rotações repetidas de tronco, jornadas longas sem pausa e estresse ocupacional aparecem entre os fatores de risco mais citados.
Em um estudo nacional com profissionais de enfermagem, 60% a 80% dos adultos relataram ao menos um episódio de dor lombar ao longo da vida, com maior prevalência entre quem não pratica atividade física regular.
Quando a coluna entra na rota do afastamento
Quadros relacionados à coluna vertebral seguem trajetória parecida. Dor que irradia para a perna, formigamento, rigidez matinal e perda de força em atividades simples como carregar sacolas ou subir escadas são sinais que exigem avaliação especializada.
Conforme os melhores ortopedistas de coluna no Brasil, parte expressiva dos afastamentos por lombalgia começa com sintomas tratáveis ignorados por meses ou anos. Quando o diagnóstico demora, hérnias de disco evoluem, estenoses se consolidam e o que poderia ser resolvido com tratamento conservador acaba indo para o centro cirúrgico.
Técnicas minimamente invasivas têm ampliado as alternativas para pacientes com hérnia de disco, estenose lombar e dor cervical crônica. Incisões menores, recuperação mais rápida e preservação da musculatura paravertebral reduzem o tempo de afastamento pós-cirúrgico e facilitam o retorno à atividade profissional.
A condição, no entanto, é chegar ao cirurgião com a coluna ainda em condições de responder ao procedimento, algo que depende diretamente do tempo transcorrido desde o início dos sintomas.
Por que a saúde mental entra na equação
O Tribunal Regional do Trabalho da 13ª Região observa, com base no Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho, que os transtornos mentais foram a terceira maior causa de afastamento em 2021, e que, quando somados aos transtornos osteomusculares, passam a figurar como uma das duas principais origens dos benefícios previdenciários concedidos no país. A combinação das duas categorias não é aleatória: ela se retroalimenta.
Um estudo internacional publicado pelo National Institutes of Health aponta que adultos com dor musculoesquelética crônica associada a ansiedade ou depressão apresentam, simultaneamente, maior prevalência de tabagismo, obesidade e inatividade física em relação a quem tem apenas uma dessas condições.
Os autores descrevem o que chamam de interação sinérgica: a soma dos dois problemas produz um prejuízo maior do que a simples adição de seus efeitos individuais. Em termos práticos, isso significa que tratar só a dor ou só a saúde mental, sem olhar para a outra, tem retorno limitado.
Outro estudo, publicado no JAMA Network Open com mais de 11 mil pacientes que buscavam cuidado musculoesquelético nos Estados Unidos, chegou a uma conclusão desconfortável: melhoras na função física e na interferência da dor só se associam a ganhos relevantes em sintomas de ansiedade quando a recuperação motora é muito expressiva, acima de duas vezes o desvio-padrão populacional.
Para depressão, não houve associação significativa. A mensagem dos autores é direta: não se pode presumir que resolver o problema ortopédico vai, sozinho, resolver o sofrimento psíquico que se instalou em volta dele.
Como o paciente pode se orientar
Diante de um cenário tão amplo, a primeira decisão de quem sente dor persistente é escolher o profissional certo para avaliar o quadro. Ortopedia é uma especialidade com diversas subáreas, e cada região do corpo tem nuances que pedem expertise específica.
Pacientes com dor lombar ou cervical que irradia para braços ou pernas, por exemplo, costumam ser mais bem avaliados por especialistas em coluna, com formação e experiência em cirurgia minimamente invasiva.
Já quem tem dor localizada no joelho, instabilidade após torções ou limitação para atividades esportivas, tende a se beneficiar de uma consulta com cirurgião de joelho, especialmente se houver histórico de lesão prévia.
A busca por profissionais qualificados passa por alguns critérios verificáveis. Registro no Conselho Regional de Medicina, Registro de Qualificação de Especialista, vínculo com sociedades como a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, atuação em hospitais de referência e volume cirúrgico consistente são pontos que o próprio paciente pode conferir antes de marcar a consulta.
Plataformas de avaliação de pacientes e diretórios médicos também ajudam a identificar ortopedistas bem avaliados e a cruzar informações antes de tomar a decisão, embora nada substitua a consulta presencial e uma segunda opinião quando a indicação for cirúrgica.
Em um número crescente de casos, o acompanhamento deixou de ser responsabilidade exclusiva do ortopedista. Quadros em que a dor crônica convive com sintomas de ansiedade, tristeza persistente, insônia ou perda de interesse por atividades antes prazerosas se beneficiam de atendimento multidisciplinar, envolvendo fisioterapia, psicologia, medicina do trabalho e, quando necessário, psiquiatria.
Empresas que passaram a estruturar programas de ergonomia, ginástica laboral e apoio emocional têm relatado reduções expressivas de afastamento, de acordo com revisões sistemáticas publicadas em periódicos internacionais.
O custo de adiar
O padrão mais comum nos consultórios brasileiros continua sendo o paciente que chega depois de anos de convivência com a dor, tomando analgésicos sem acompanhamento e evitando atividades que antes fazia sem pensar.
O corpo se adapta, a musculatura perde força, a mobilidade diminui e o humor acompanha o processo. Quando o ortopedista finalmente entra em cena, boa parte das alternativas conservadoras já foi comprometida pelo tempo.
Para Dr. Aurélio Arantes, que realiza procedimentos avançados de cirurgia de coluna em Goiânia empregando métodos minimamente invasivos para tratar hérnias de disco, estenoses e outras patologias, reverter esse cenário depende de uma mudança pequena e difícil ao mesmo tempo: tratar dor persistente como sinal de alerta, não como parte da rotina.
Para o trabalhador, isso significa buscar avaliação no primeiro mês de sintomas, não no primeiro ano. Para as empresas, implica aceitar que prevenção custa muito menos do que substituir profissionais afastados. Para o sistema de saúde, envolve reconhecer que corpo e mente chegam juntos ao consultório e precisam sair juntos do tratamento.
Os números não deixam dúvida de que os problemas ortopédicos deixaram de ser um incômodo individual para se tornarem um problema de saúde pública, com efeitos diretos sobre a economia e sobre o bem-estar emocional de milhões de brasileiros.
Ignorar essa realidade custa caro, e o preço é pago em etapas: primeiro em horas de sono, depois em dias de trabalho, depois em anos de qualidade de vida.























