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Recorde de acidentes de trabalho no Brasil: um alerta para a gestão da prevenção

Recorde de acidentes de trabalho no Brasil reforça a importância do GRO, PGR, treinamentos e medidas efetivas de prevenção nas empresas.

Recorde de acidentes de trabalho no Brasil: um alerta para a gestão da prevenção
Foto: Reprodução
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Os números recentes dos acidentes de trabalho no Brasil reforçam uma realidade que exige atenção permanente de empresas, trabalhadores e profissionais de Segurança e Saúde no Trabalho – SST. Reportagem do Jornal Hoje/G1 chamou atenção para o recorde de acidentes registrado no país no primeiro semestre e para a relevância crescente dos acidentes de trajeto.

Um cenário que exige atenção

Levantamentos divulgados em 2026 apontam 1.843.604 notificações de acidentes de trabalho entre janeiro de 2023 e maio de 2026. Somente entre janeiro e maio de 2026 foram contabilizadas 222.139 ocorrências. Esses dados devem ser interpretados conforme a base estatística e o período considerado, pois diferentes sistemas oficiais podem utilizar critérios e universos distintos.

Mais do que números, essas ocorrências representam trabalhadores afastados, famílias afetadas, impactos previdenciários e perdas para as organizações e para a sociedade. O cenário evidencia que a prevenção não pode ser tratada apenas como obrigação documental ou atendimento formal às Normas Regulamentadoras.

Acidente de trabalho raramente possui uma única causa

Na análise técnica de acidentes, normalmente se identifica uma combinação de fatores relacionados às condições do ambiente, equipamentos, procedimentos, organização do trabalho, manutenção, capacitação, supervisão e comportamento operacional.

Por esse motivo, atribuir o evento exclusivamente ao chamado “ato inseguro” do trabalhador pode resultar em uma investigação superficial. É necessário analisar as causas imediatas e, principalmente, as causas básicas e organizacionais que permitiram a ocorrência.

GRO e PGR precisam funcionar na prática

A NR-01 estabelece as diretrizes para o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais – GRO, incluindo a elaboração e implementação do Programa de Gerenciamento de Riscos – PGR. O objetivo não é simplesmente produzir documentos, mas reconhecer perigos, avaliar riscos e estabelecer medidas efetivas de prevenção.

Um inventário de riscos somente possui valor preventivo quando reflete as condições reais de trabalho e está associado a um plano de ação efetivamente executado. Identificar um risco e mantê-lo apenas registrado no documento não significa controlá-lo.

A prevenção deve observar a hierarquia das medidas de controle, priorizando a eliminação do perigo e as medidas de proteção coletiva, administrativas e de organização do trabalho, complementadas, quando necessário, pelos Equipamentos de Proteção Individual – EPIs.

Treinamento não pode ser apenas uma assinatura

Capacitação eficiente não se resume à emissão de certificado ou coleta de assinatura em lista de presença. O trabalhador deve compreender os perigos da atividade, reconhecer situações críticas, conhecer os procedimentos seguros e saber como agir diante de uma condição que possa colocar em risco sua integridade ou a de terceiros.

Da mesma forma, a organização deve acompanhar continuamente a aplicação prática dos procedimentos, corrigindo desvios e promovendo reciclagens sempre que mudanças de processo, acidentes, incidentes ou outras evidências demonstrarem essa necessidade.

A investigação deve produzir prevenção

Toda ocorrência deve gerar aprendizado. Uma investigação tecnicamente consistente deve verificar, entre outros aspectos: se o perigo havia sido identificado; se existiam medidas de controle; se essas medidas eram adequadas e estavam implementadas; se havia procedimento de trabalho; se o trabalhador estava capacitado; se máquinas e equipamentos apresentavam condições seguras; e se existiam falhas de planejamento, manutenção ou supervisão.

O objetivo principal da investigação não deve ser encontrar um culpado, mas identificar as condições que precisam ser modificadas para impedir a repetição do evento.

O desafio dos acidentes de trajeto

A reportagem também chama atenção para os acidentes de trajeto. Esse aspecto amplia a discussão sobre prevenção, pois o deslocamento pode envolver trânsito, condições das vias, veículos, jornadas prolongadas, horários, fadiga e organização das atividades.

Nem todos esses fatores estão sob controle direto da empresa. Entretanto, ações de conscientização no trânsito, direção defensiva, planejamento de deslocamentos, gestão de jornada e acompanhamento das condições dos veículos utilizados no trabalho podem integrar uma política mais ampla de prevenção.

Documentação e registros também fazem parte da prevenção

Treinamentos, inspeções, manutenções, análises de riscos, procedimentos operacionais, entrega de EPIs e acompanhamento das medidas de controle devem possuir registros confiáveis.

Esses documentos não devem existir somente para eventual fiscalização ou processo judicial. Quando corretamente utilizados, permitem acompanhar a evolução das medidas preventivas, identificar falhas recorrentes e demonstrar se aquilo que foi planejado realmente foi executado.

Conclusão

O crescimento dos registros de acidentes de trabalho demonstra que ainda existe um longo caminho a percorrer na construção de ambientes laborais mais seguros.

Prevenção significa agir antes da ocorrência. Significa identificar perigos, avaliar riscos, eliminar ou controlar as exposições, capacitar trabalhadores, fiscalizar procedimentos, manter máquinas e equipamentos em condições adequadas e revisar continuamente a eficácia das medidas implantadas.

O recorde divulgado deve servir como alerta para toda a sociedade. Segurança e Saúde no Trabalho não podem existir somente no papel.

A segurança começa na identificação do perigo, passa pela avaliação adequada do risco e somente se concretiza quando as medidas de prevenção são efetivamente implantadas, acompanhadas e aperfeiçoadas.

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Rafael Mansani e José Leal
Autoria
Rafael Mansani e José Leal
Rafael Mansani - Engenheiro Civil e de Segurança do trabalho, pós graduado em Gestão Pública, Mestrando em Eng. De Produção. Diretor Executivo do IPLAN-PMPG. José Leal - Engenheiro civil; Engenheiro de Segurança do Trabalho; Pós-Graduado em: Eng. Sanitária e Ambiental; MBA de Gestão de Eng. de Segurança do Trabalho; Ergonomia; Administração Aplicada à Segurança do Trabalho.
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