A chegada dos trilhos e o desenvolvimento da atenção à saúde em Ponta Grossa por Liliam Brandalise
A saúde em Ponta Grossa evoluiu da medicina ferroviária ao SUS e consolidou a cidade como polo médico e hospitalar dos Campos Gerais.

Com a chegada da Estrada de Ferro do Paraná, em 1984 e a conexão com a Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, no início do século XX, Ponta Grossa se tornou o principal entroncamento ferroviário do sul do Brasil.
A cidade passou a receber diariamente milhares de passageiros, imigrantes, comerciantes e trabalhadores das obras ferroviárias e com essa movimentação rápida e constante de pessoas surgiram epidemias e a necessidade urgente de prevenção sanitária e socorro de urgência para acidentes de trabalho nas ferrovias.
A falta de uma rede estatal de saúde, no início do século XX mobilizou a sociedade civil, para atender a população carente e os viajantes que passavam pela estação e com esse movimento a Santa Casa de Misericórdia de Ponta Grossa foi fundada em 1912, sendo a época o grande pilar da medicina no município como também, para atender especificamente os ferroviários e suas famílias, a Associação de Socorros do Pessoal da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, criada em 1906, fundou o Hospital 26 de Outubro, em 1931 marcando o pioneirismo da medicina do trabalho e de medicina de grupo no interior do estado
Na metade do século XX, com o declínio gradual do transporte ferroviário e a consolidação do entroncamento rodoviário, Ponta Grossa expandiu seu parque hospitalar, ampliando sua rede de hospitais filantrópicos e privados, como o Hospital Vicentino, Hospital Bom Jesus e clínicas especializadas.
O Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Saúde, sedia em Ponta Grossa a 3ª Regional de Saúde, centralizando a gestão de saúde para Ponta Grossa, Castro, Piraí do Sul, Telêmaco Borba, Jaguariaíva, entre outros.
A municipalização do Sistema Único de Saúde (SUS) em Ponta Grossa ocorreu a partir dos anos 1990, acompanhando as grandes diretrizes da Lei Orgânica da Saúde (Lei nº 8.080/1990) e o processo de descentralização no Brasil. A transição envolveu a transferência da gestão e do orçamento da saúde da esfera federal/estadual para o controle direto da prefeitura.
A organização do processo em Ponta Grossa seguiu etapas essenciais, segundo a lei nº 8080/90, que foi a criação do Conselho Municipal de Saúde e do Fundo Municipal de Saúde e organização das Conferências Municipais de Saúde.
A municipalização exigiu a transição do antigo modelo puramente hospitalocêntrico, herdado da época da medicina ferroviária e previdenciária do INAMPS, para um modelo focado na prevenção, com a expansão das Unidades Básicas de Saúde (UBS) pelos bairros e vilas da cidade e a implementação das equipes do Estratégia Saúde da Família e do programa dos agentes comunitários de saúde.
Por ser o maior município dos Campos Gerais, a municipalização do SUS em Ponta Grossa não se limitou ao atendimento de seus próprios moradores, pactuando com a 3ª Regional de Saúde e com os outros municípios da região o atendimento de consultas especializadas e na média e alta complexidade.
O município enfrentou o constante desafio da subfinanciamento, já que a demanda regional muitas vezes superava o teto financeiro repassado pelo governo federal. Isso exigiu aportes crescentes de recursos próprios do orçamento municipal.
A municipalização em Ponta Grossa transformou a prefeitura de uma mera administradora de postos de vacina na gestora principal do sistema sanitário local, coordenando desde o posto do bairro até a contratação e regulação de leitos hospitalares de alta complexidade para a cidade e região.
Nas últimas décadas, Ponta Grossa consolidou-se definitivamente como o hub de saúde dos Campos Gerais através de três motores principais como a formação acadêmica por meio da criação dos cursos da área da saúde, na Universidade Estadual de Ponta – UEPG destacando-se os cursos de Medicina, Enfermagem, Odontologia e Farmácia que atraiu médicos especialistas, pesquisadores e programas de residência médica de alta qualidade para o município
A inauguração do Hospital Universitário da UEPG e posteriormente o Hospital Universitário Materno-Infantil – HUMAI elevou a capacidade de atendimento do SUS na região, oferecendo leitos de UTI, pronto-socorro e procedimentos de média e alta complexidade. A cidade tornou-se centro de encaminhamento regional para casos graves que antes exigiam deslocamento até Curitiba, como na oncologia, cardiologia e neurocirurgia, traumatologia e urgência.
A saúde em Ponta Grossa nasceu da urgência de acolher e tratar quem chegava pelas estações de trem no início do século XX. Essa vocação de acolhimento e convergência geográfica transformou a cidade de um ponto de passagem num grande polo médico-hospitalar e acadêmico do interior do Paraná.
Artigo de Liliam Brandalise para o livro: “PONTA GROSSA: Da Rota dos Tropeiros aos Trilhos da Inovação”
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