Antiga ferrovia pode virar uma das maiores rotas de cicloturismo do Brasil
Caminho Rio do Peixe propõe transformar 372 km de ferrovia entre Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul em rota turística.

O projeto Caminho Rio do Peixe pretende transformar 372 quilômetros de uma antiga ferrovia em um dos maiores corredores de cicloturismo e caminhada do Brasil. O percurso ligaria União da Vitória, no Paraná, a Marcelino Ramos, no Rio Grande do Sul, atravessando também municípios de Santa Catarina.
A proposta foi apresentada durante uma audiência pública da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), realizada em Curitiba. O encontro faz parte das discussões relacionadas à nova licitação da Malha Ferroviária Sul.
A iniciativa prevê o aproveitamento do trecho ferroviário atualmente desativado para atividades turísticas, esportivas e culturais. Além das trilhas para bicicletas e caminhadas de longa distância, o roteiro poderá incluir estações, pontes, túneis e outras estruturas construídas ao longo da antiga linha férrea.
Segundo estimativas do Instituto Caminho Rio do Peixe (ICARP), responsável pela defesa do projeto, a rota poderá receber aproximadamente 200 mil visitantes por ano. A movimentação econômica projetada pela entidade ultrapassa R$ 80 milhões anuais nos municípios localizados ao longo do percurso.
TURISMO E PRESERVAÇÃO HISTÓRICA
A proposta foi apresentada na audiência pelo ex-vereador de Curitiba Jorge Bernardi, representando o presidente do ICARP, o engenheiro Sady Zago. Bernardi destacou que a transformação da ferrovia pode preservar a história regional e, ao mesmo tempo, criar novas oportunidades econômicas.
A ideia é que os antigos trilhos e demais estruturas ferroviárias sejam incorporados a um roteiro permanente de cicloturismo e caminhada. O modelo é semelhante ao implantado em países europeus que converteram linhas ferroviárias sem operação em corredores de turismo e lazer.
O arquiteto Arthur Brandalize é apontado como o idealizador do Caminho Rio do Peixe. A proposta vem sendo estruturada pelo instituto com a participação de representantes das comunidades e de lideranças dos estados envolvidos.
Além das paisagens naturais do Vale do Rio do Peixe, o trajeto passa por áreas ligadas à história da Guerra do Contestado. O conflito ocorreu no início do século XX e deixou importantes referências culturais e históricas no Paraná e em Santa Catarina.
O projeto pretende integrar essa memória ao roteiro turístico, recuperando antigas estações e construções que atualmente enfrentam abandono e deterioração.
ROTA PODERÁ MOVIMENTAR ECONOMIA REGIONAL
A implantação do Caminho Rio do Peixe poderá beneficiar pousadas, hotéis, restaurantes, cafés, agroindústrias, guias de turismo, ciclistas, produtores rurais e comerciantes dos municípios envolvidos.
A expectativa é que os visitantes permaneçam por mais tempo nas cidades para concluir as diferentes etapas do percurso. Isso poderá ampliar o consumo de hospedagem, alimentação, transporte e produtos regionais.
O turismo de caminhada e bicicleta também pode distribuir o fluxo de visitantes durante diferentes períodos do ano, reduzindo a dependência de temporadas específicas.
A projeção de R$ 80 milhões em movimentação econômica, no entanto, é uma estimativa apresentada pelo próprio instituto e dependerá da implantação da infraestrutura, da conservação do percurso e da participação dos governos estaduais e municipais.
INSTITUTO FAZ PEDIDOS À ANTT
Durante a audiência, o ICARP apresentou quatro reivindicações consideradas fundamentais para viabilizar a rota turística.
A entidade pediu que o edital da nova concessão ferroviária esclareça a destinação dos trechos que não serão utilizados para o transporte de cargas. Entre eles está o ramal localizado entre Porto União e Marcelino Ramos.
O instituto também defende a formalização da desativação desse trecho para operações ferroviárias de carga. A medida permitiria iniciar os procedimentos para destinar a área ao turismo e ao lazer.
Outra solicitação é a criação de um mecanismo de cessão gratuita da faixa ferroviária para estados ou municípios, com possibilidade de parceria com entidades responsáveis pela futura gestão do corredor.
O ICARP ainda pediu que estações, pontes, túneis e outras estruturas históricas não sejam desmontados, vendidos como sucata ou descaracterizados antes de uma decisão oficial sobre o destino do patrimônio.
O debate sobre a concessão da Malha Ferroviária Sul continuará em audiências previstas para Florianópolis e Porto Alegre. As reuniões permitirão que representantes dos três estados apresentem sugestões para o edital.
Caso saia do papel, o Caminho Rio do Peixe poderá transformar uma ferrovia desativada há décadas em um corredor turístico de referência nacional, conectando patrimônio histórico, natureza, esporte e desenvolvimento econômico.
Das assessorias
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