Conquistas e preconceitos da gastronomia feminina brasileira
A gastronomia brasileira vê mulheres conquistarem espaços antes masculinos, mas o preconceito persiste. Premiações como o Latin America’s 50 Best destacam chefs mulheres, enquanto relatos expõem o apagamento histórico de seu trabalho, sobretudo nos universos das carnes e dos pescados.

A gastronomia brasileira vive um momento de transformação, com mulheres assumindo o protagonismo em cozinhas e restaurantes de prestígio.
No entanto, apesar dos avanços, as profissionais ainda enfrentam preconceitos enraizados em um universo historicamente masculino. Relatos de chefs e premiações recentes mostram essa dualidade: reconhecimento crescente versus a luta para superar estereótipos.
Reconhecimento internacional e o debate sobre cotas
Criado em 2013, o Latin America’s 50 Best Restaurants tornou-se referência na região. Uma de suas categorias é a de melhor chef mulher da América Latina, dedicada exclusivamente ao gênero feminino. A primeira a conquistar o título foi a brasileira Helena Rizzo, do restaurante Maní. Em 2021, a peruana Pia León, de 39 anos, à frente do restaurante Kjolle, recebeu o prêmio de melhor chef feminina do mundo pelo The World’s 50 Best.
A própria Pia León, porém, não escapou das polêmicas. Ela revelou que muitas pessoas a questionaram sobre o sentido de existir um prêmio específico para mulheres.
A discussão reacende um debate delicado: as categorias femininas servem como plataforma de visibilidade ou reforçam a ideia de que a excelência na gastronomia é, por padrão, masculina? Apesar das dúvidas, nomes femininos continuam marcando presença nesses rankings.
O apagamento feminino na tradição das carnes
A chef França Pinto resgata uma memória que explica parte desse desequilíbrio. Segundo ela, as mulheres sempre estiveram envolvidas no preparo de animais, mas houve um apagamento sistemático. “Na roça, as mulheres sempre trataram do bicho, mas quem aparecia era o homem da carne, o açougueiro e o churrasqueiro”, detalhou.
A fala denuncia como o trabalho feminino foi historicamente obscurecido, sobretudo no universo das carnes.
Na prática contemporânea, o restaurante Clan, no Leblon, Rio de Janeiro, ilustra essa contradição. O local costuma ter filas e traz um neon com os dizeres “Não apague meu fogo”. A chef conhecida como Sad, responsável pela casa, afirmou que serve carne “de uma maneira feminina”.
Mesmo assim, a frequência do Clan é majoritariamente masculina, de acordo com constatações.
Mergulho feminino no universo dos pescados
Se no terreno das carnes o apagamento é notório, no segmento de peixes e frutos do mar há sinais de quebra de tabus. Monique Gabiatti é a única chef do Rio de Janeiro a trabalhar exclusivamente com esses ingredientes. Nascida em Sergipe, mas de família carioca, ela teve uma infância marcada pela itinerância: o pai era piloto e a levou a viver em diversas capitais do Nordeste. Desde cedo, seu universo foi povoado por manguezais, lagoas e pela convivência com as marisqueiras.
Essa bagagem a fez rejeitar categoricamente a ideia de que mulheres não devem manusear peixe. “A noção de que mulheres não devem preparar peixe caiu por terra faz tempo”, garantiu. Gabiatti também destacou que, atualmente, é possível ver mulheres brilhando no sushi, área que já foi reduto quase exclusivo dos sushimans.
Para ela, a técnica e a sensibilidade culinária não têm gênero, e a presença feminina nesse nicho é uma prova concreta disso.
O cenário atual: conquistas e preconceitos persistentes
Os exemplos de Helena Rizzo, Pia León, Sad, França Pinto e Monique Gabiatti compõem um mosaico da nova gastronomia brasileira: feminina, diversa e competente. No entanto, essas profissionais ainda precisam reafirmar seu espaço cotidianamente, em uma batalha que mescla conquistas e preconceitos persistentes. A face da cozinha nacional mudou, mas as velhas estruturas mentais ainda resistem.























