Há 60 anos, São Paulo ganhou um piso de calçadas que se tornou um símbolo gráfico da cidade. Presente no centro da capital paulista, a estampa remete à bandeira do estado.
O desenho foi escolhido em um concurso da prefeitura. A história de sua criadora, Mirthes Bernardes (1934-2020), ficou por décadas à sombra da obra.
A autora não recebeu pela criação. Esse episódio revela como nomes por trás de ícones urbanos podem ser apagados.
O concurso que definiu um símbolo
O processo para escolher o desenho das calçadas ocorreu entre 1965 e 1966. Foi um concurso promovido pela prefeitura de São Paulo.
A inspiração vinha de outras cidades brasileiras. Rio de Janeiro e Brasília já utilizavam a pedra portuguesa como material.
Os projetos finalistas
Os quatro modelos finalistas foram expostos na rua da Consolação para avaliação pública. Eles refletiam diferentes visões sobre como representar a cidade.
- Mapa do Estado de São Paulo, de Mirthes Bernardes
- Grãos de café, de Raul Fagundes
- Setas, de Gilberto Caldas
- Proposta anônima com símbolos de vales, pontes e viadutos
Ao final, o desenho de Mirthes foi o escolhido. Ele remetia à bandeira estadual e se tornou parte da paisagem paulistana.
A aplicação e transformação do piso
Os primeiros pisos com os desenhos da bandeira foram aplicados na rua da Consolação. Isso deu início à disseminação do padrão pela cidade.
O material usado era a pedra portuguesa. Seguia a tradição de outras metrópoles brasileiras.
Mudanças urbanísticas
O piso original começou a entrar em risco de extinção durante o mandato do prefeito Paulo Maluf. Mudanças urbanísticas alteraram parte do cenário.
As calçadas em pedra portuguesa foram substituídas por outras em ladrilho hidráulico. A estampa criada por Mirthes foi mantida.
Essa transição permitiu que o desenho sobrevivesse. O padrão reapareceu em ladrilho hidráulico na inauguração da avenida Faria Lima em 1970.
A autora por trás do desenho
Mirthes Bernardes era formada em pedagogia e serviço social. Sua trajetória combinava educação e arte.
À época do concurso, ela era funcionária pública da prefeitura de São Paulo. Atuava em funções administrativas.
Depois da passagem pela prefeitura, ela seguiu como artista plástica. Explorou outras expressões criativas além do design urbano.
Reconhecimento tardio
Quando venceu o concurso, ela não recebeu nenhum incentivo financeiro pela criação. Era uma prática comum na época para servidores públicos.
Foi somente depois de 2008 que Mirthes chegou a ter alguma recompensa financeira. Isso ocorreu décadas após sua obra ter se tornado onipresente nas ruas.
Essa demora ilustra como a valorização de autores pode ser tardia. Acontece mesmo com contribuições significativas para a cidade.
O legado e a falta de proteção
O piso não é tombado em nenhuma instância. Isso significa que não possui proteção legal como patrimônio cultural.
A ausência de salvaguarda deixa o símbolo gráfico vulnerável. Ele pode sofrer alterações ou remoções em futuras intervenções urbanas.
A situação contrasta com a importância que o desenho adquiriu. Tornou-se um elemento identitário da cidade ao longo de seis décadas.
Um lembrete necessário
A história de Mirthes Bernardes serve como lembrete. Criações urbanas podem eclipsar seus criadores.
Seu caso mostra a necessidade de reconhecer e preservar não apenas os objetos. As narrativas por trás deles também são importantes.
Assim, a próxima vez que um paulistano pisar na calçada, poderá lembrar da artista. Ela idealizou esse pedaço da cidade.

















