Preparar o pouso dos próximos 30 anos por Paulo Pinto
A infraestrutura de Ponta Grossa será decisiva para atrair empresas, investimentos e garantir o desenvolvimento da cidade nos próximos anos.

Ponta Grossa nasceu de uma economia que escolhia onde parar pelo que encontrava: água, pasto, invernada, caminhos. Como lembra o texto “Da economia tropeira à economia global”, a cidade prosperou porque oferecia condições antes de o viajante chegar.
Na era industrial, o método se repetiu, construído em ciclos, por várias gerações de lideranças. Em 1969, o prefeito Cyro Martins instituiu o PLADEI, o Plano de Desenvolvimento Industrial, e adquiriu em 1971, da Rede Ferroviária Federal, a área do futuro Distrito Industrial. Luiz Gonzaga Pinto, prefeito a partir de 1973, atraiu as primeiras grandes agroindústrias e renunciou em 1975 para assumir a Secretaria da Indústria e do Comércio do Paraná — de onde seguiu apoiando o projeto do Distrito, concluído em 1976 na gestão de Amadeu Puppi. Nenhum dos três cortou a fita das grandes fábricas que vieram depois; os três prepararam o terreno delas.
Os resultados dispensam adjetivos. No fim dos anos 1970, a cidade concentrava 40% do esmagamento de soja do país. Nas décadas seguintes, diversificou-se: embalagens, autopeças, alimentos, madeira, papel. Cada empreendimento trouxe empregos, tecnologia e exportações — todos atraídos pelos mesmos motivos: logística, infraestrutura e ambiente favorável. Hoje o município abriga o maior parque industrial do interior do Paraná, registrou o maior crescimento do PIB entre as principais cidades do Estado nos dados mais recentes do IBGE e lidera as exportações paranaenses em cinco segmentos.
A pergunta decisiva, porém, não é o que já chegou; é o que ainda não decidiu vir. O investidor moderno também procura seus “pousos”. Sua água e seu pasto chamam-se, hoje, energia firme, água industrial, gás, saneamento, terrenos preparados, acessos rodoviários e ferroviários fluidos, aeroporto diversificado, conectividade, moradia, mobilidade, segurança jurídica e, sobretudo, gente qualificada. Assim como as comitivas de outrora escolhiam onde parar, o capital escolhe as cidades onde encontra condições para crescer.
Por isso, a única estratégia sustentável é manter a infraestrutura um passo à frente do crescimento. Uma cidade não pode esperar faltar energia para ampliar sua capacidade; não pode esperar faltar água para ampliar a oferta; não pode esperar saturar uma rodovia para planejar novos acessos; não pode esperar faltar gás para estender a rede; não pode esperar o aeroporto ficar aquém da demanda para diversificar seus serviços; não pode esperar esgotar a área industrial para adquirir novos terrenos; não pode esperar faltar mão de obra para investir em qualificação; não pode esperar o investidor chegar para começar a se preparar. Infraestrutura não deve acompanhar o desenvolvimento; precisa chegar antes dele.
Há meio século, prefeitos prepararam terreno para empresas que não conheciam. Hoje, num eco que a história caprichou em escrever, a ACIPG que projeta a cidade de 2043 por meio do Masterplan é presidida por Leonardo Puppi Bernardi, neto de Amadeu Puppi, e tem como diretor de Indústria Paulo Pinto, neto de Luiz Gonzaga Pinto — que se tornou secretário municipal de Indústria e Comércio em 2023, exatos cinquenta anos depois de o avô assumir a Prefeitura. Os netos herdaram mais que os sobrenomes: herdaram um método que atravessa gerações e partidos — o mesmo que, em 1923, no primeiro ano de vida da entidade, levou seus fundadores a pleitear a estrada para Guarapuava.
Agora a pergunta é nossa. Neste exato momento, em alguma sala que nunca conheceremos, uma empresa compara cidades num mapa — e o que decidirmos hoje sobre energia, água, terrenos e formação de gente determinará se Ponta Grossa estará ou não naquela lista daqui a cinco, dez, vinte anos. O futuro não perguntará quantas inaugurações celebramos; perguntará quantas tornamos possíveis. Daqui a trinta anos, nossos filhos e netos olharão para esta década como hoje olhamos para 1969: como o tempo em que uma geração preparou o terreno do futuro deles — ou como o tempo em que deixou de prepará-lo. As comitivas de outrora não paravam onde faltava pouso; o capital tampouco para. Que ninguém possa dizer que não sabíamos. Que se diga que, sabendo, escolhemos preparar — com abundância, e não no limite — o pouso das empresas que ainda nem decidiram vir.























