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O que ninguém vê: a prevenção de acidentes além dos holofotes

A segurança do trabalho no Brasil precisa respeitar sua realidade: prevenir é mais do que copiar modelos — é adaptar, aplicar e proteger de verdade.

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Foto: Clinimed
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Em tempos de reformas, reestruturações e adoção cega de modelos internacionais, alguém precisa lembrar uma verdade simples: estamos no Brasil. E é justamente aqui que precisamos refletir com mais seriedade sobre as soluções que implementamos em segurança do trabalho, considerando nossa cultura, estrutura socioeconômica e realidade produtiva.

A prevenção brasileira: um modelo construído com identidade

A prevenção de acidentes no Brasil não nasceu de cópias prontas importadas. Ela foi construída ao longo das últimas décadas com base em uma realidade complexa e muitas vezes adversa. O modelo do SESMT (Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho), das CIPAs (Comissões Internas de Prevenção de Acidentes) e de tantas outras iniciativas foi moldado para atender às especificidades do país, respeitando a necessidade de transformar culturalmente a visão que o brasileiro médio tem sobre saúde, segurança e riscos no trabalho.

Criticar o modelo atual sem levar em conta o contexto nacional é, no mínimo, uma miopia técnica. Ainda não alcançamos, como sociedade, uma compreensão profunda sobre o valor real da saúde frequentemente trocada por adicionais salariais, especialmente em cenários econômicos difíceis. Essa lógica distorcida, que naturaliza o risco em troca de compensações financeiras, reflete uma imaturidade estrutural que impede avanços mais sólidos.

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O papel real do profissional de segurança

Há quem acuse os profissionais de segurança de atuarem para manter os adicionais de insalubridade. Trata-se de um equívoco grave. Na prática, o que esses profissionais vêm fazendo ao longo dos anos é exatamente o contrário: desenvolver soluções técnicas para eliminar os riscos e, assim, eliminar os próprios adicionais. Isso pode ser comprovado em diversas empresas brasileiras que hoje são referência internacional pela criatividade e eficácia das suas estratégias de prevenção.

A impunidade como maior risco

O Brasil não carece de conhecimento técnico para evitar acidentes de trabalho. O que falta, em muitos casos, é vontade de aplicar o básico. Acidentes fatais, comuns nos noticiários, geralmente ocorrem por negligência de normas elementares de segurança. A verdadeira “condição insegura” no país é a certeza da impunidade, somada ao distanciamento da fiscalização e à omissão de autoridades nas pequenas e médias empresas.

É possível observar que, nas grandes empresas onde há atuação efetiva de programa de prevenção, acidentes graves se tornaram exceção. Já nas pequenas obras, nas atividades informais ou em empresas que não possuem qualquer estrutura de segurança, a realidade é brutalmente diferente. E são nesses locais, invisibilizados e esquecidos — que a maioria dos acidentes acontece.

A urgência da universalização do SESMT

É necessário, e urgente, discutir a universalização do SESMT. Não se trata de aumentar burocracia, mas sim de garantir que todos os trabalhadores, independentemente do porte da empresa, tenham acesso à proteção técnica e à orientação especializada. A ausência de profissionais prevencionistas em 98% das empresas brasileiras não pode mais ser ignorada. Perguntar onde acontecem os acidentes não é mera retórica — é um diagnóstico. E a resposta está nas ruas, nas obras sem proteção, nas fábricas improvisadas, nas estatísticas invisíveis.

Não precisamos buscar exemplos apenas fora do país. Basta olhar ao redor. A precariedade está na esquina, e as tragédias, muitas vezes, já têm endereço conhecido. Ignorar isso é assumir, por omissão, um papel na manutenção dessa realidade cruel.

O que está em jogo

A saúde e a vida dos trabalhadores não podem ser entregues ao “mercado” sem critérios. Quando a segurança é tratada como custo e não como valor, as consequências são previsíveis — e fatais. A defesa de modelos estrangeiros sem adaptação à nossa realidade ignora que, mesmo nos países mais avançados, há exigência mínima de suporte especializado, independentemente do tamanho da empresa ou do grau de risco da atividade.

No Brasil, ao contrário, ainda se debate se um trabalhador merece proteção apenas se a empresa tiver determinado número de empregados. Isso não é evolução. É retrocesso.

Considerações finais

É preciso coragem para ver o que ninguém quer ver. A prevenção no Brasil precisa ser discutida com seriedade, isenta de interesses corporativos ou ideológicos. A aplicação de prevenção, onde bem estruturado, deu certo — e pode dar ainda mais certo se for expandido e adaptado para atender as empresas hoje desassistidas.

Trata-se de reconhecer o que já funciona, corrigir o que precisa ser melhorado e, acima de tudo, colocar a vida do trabalhador como prioridade. A prevenção de acidentes não pode continuar sendo aquilo que poucos enxergam e muitos ignoram. É tempo de ver, de agir e de proteger.

Rafael Mansani e José Leal
Autoria
Rafael Mansani e José Leal
Rafael Mansani - Engenheiro Civil e de Segurança do trabalho, pós graduado em Gestão Pública, Mestrando em Eng. De Produção. Diretor Executivo do IPLAN-PMPG. José Leal - Engenheiro civil; Engenheiro de Segurança do Trabalho; Pós-Graduado em: Eng. Sanitária e Ambiental; MBA de Gestão de Eng. de Segurança do Trabalho; Ergonomia; Administração Aplicada à Segurança do Trabalho.
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