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Policiais teriam recebido quase R$ 150 mil em propina de motoristas da região, revela promotor

Em entrevista ao BnT, promotor revelou que o valor não inclui pagamentos em espécie nem supostas mensalidades de empresas

Policiais teriam recebido quase R$ 150 mil em propina de motoristas da região, revela promotor
Bnt Online
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A segunda fase da Operação Via Pix, deflagrada nesta quinta-feira (13), ganhou novos detalhes em entrevista concedida ao BnT Online pelo promotor de Justiça Antônio Juliano Souza Albanez. Segundo ele, apenas um dos grupos investigados teria movimentado cerca de R$ 140 mil em pagamentos de propina durante um período de aproximadamente dez meses.

O valor foi identificado por meio de quebras de sigilo bancário e não representa a dimensão total do suposto esquema. De acordo com o promotor, o levantamento não contabiliza pagamentos realizados em dinheiro nem os valores mensais que algumas empresas da região teriam repassado aos policiais para evitar fiscalizações. “Esse cálculo não é muito seguro. Pelo menos nesta fase, ainda não conseguimos fazer esse cálculo com certeza”, explicou Albanez.

A operação foi conduzida pelo Núcleo de Ponta Grossa do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), com o apoio da Corregedoria da Polícia Militar. Foram cumpridos 24 mandados de busca e apreensão e determinado o afastamento cautelar das funções operacionais de 12 policiais rodoviários estaduais.

As ordens judiciais foram cumpridas em Ponta Grossa, Castro, Jaguariaíva, Ibaiti, Arapoti, Wenceslau Braz, Guarapuava, Joaquim Távora, Curiúva, Sengés e Guapirama.

Durante o cumprimento dos mandados, cinco pessoas foram presas em flagrante. Quatro detenções ocorreram por posse irregular de armas e munições e uma por suspeita de obstrução da Justiça. A investigação apura possíveis crimes de concussão, corrupção ativa e passiva, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro e constituição de organização criminosa.

Investigação começou com denúncias de motoristas

Albanez explicou que a investigação começou em 2025, a partir de informações encaminhadas ao Ministério Público pela própria Polícia Militar. Motoristas relataram que teriam sido submetidos a cobranças feitas por policiais rodoviários nas estradas dos Campos Gerais e do Norte Pioneiro. Algumas vítimas apresentaram informações sobre pagamentos realizados por Pix. A partir desses relatos, o Gaeco começou a mapear os policiais possivelmente envolvidos e as contas bancárias que estariam sendo utilizadas para receber os valores.

Na primeira fase da Operação Via Pix, deflagrada em outubro de 2025, foram cumpridos 19 mandados de busca e apreensão. Sete policiais rodoviários estaduais foram afastados das funções operacionais. A análise dos celulares, documentos e outros materiais apreendidos revelou, segundo o promotor, que o possível esquema era maior do que o inicialmente imaginado.

“Com os dados dos aparelhos celulares e documentos apreendidos, identificamos outros policiais participando. O esquema seria maior do que aquilo que imaginávamos inicialmente”, afirmou Albanez.

Policiais dividiriam valores arrecadados

As primeiras informações indicavam a possível atuação de pelo menos dois grupos de policiais. Embora fossem aparentemente independentes, eles adotariam formas semelhantes de abordagem e cobrança. O aprofundamento das investigações apontou que vários policiais poderiam atuar em conjunto e dividir os valores exigidos dos motoristas. Além das cobranças feitas diretamente nas rodovias, o Gaeco identificou indícios de pagamentos periódicos realizados por empresas.

Segundo Albanez, empresas dos setores de transporte de cargas e de madeira teriam pago valores mensais para que seus veículos circulassem sem passar pela fiscalização adequada. “Identificamos pagamentos sistemáticos de propina por algumas empresas da região para que pudessem circular livremente pelas rodovias, sem ter a fiscalização devida”, declarou.

Os empresários suspeitos de participar dessas práticas também foram alvos das buscas realizadas nesta segunda fase.

Monitoramento registrou QR Codes durante abordagens

Outro detalhe revelado pelo promotor foi a realização de um monitoramento nas rodovias. As equipes produziram filmagens, gravações e acompanharam a atuação dos policiais militares rodoviários durante determinadas abordagens. Em alguns casos, os investigadores registraram movimentações consideradas suspeitas entre os policiais e os motoristas. Uma das situações que chamou a atenção foi a exibição de QR Codes em celulares durante as fiscalizações.

“Não é usual mostrar QR Codes no celular para o motorista. Isso é um indício muito claro de que poderia estar havendo pagamento por Pix na própria rodovia”, explicou Albanez. Além das imagens, o conjunto de provas inclui transferências bancárias, mensagens, documentos e dados extraídos dos aparelhos apreendidos.

Boletins de acidentes teriam sido adulterados

A investigação também encontrou indícios de falsidade ideológica. Conforme o promotor, alguns policiais teriam inserido informações falsas em boletins de ocorrência relacionados a acidentes de trânsito. As alterações poderiam modificar a classificação dos danos sofridos por veículos e beneficiar determinadas pessoas ou empresas.

Em alguns casos, veículos que deveriam receber alguma restrição poderiam voltar a circular. As informações falsas também poderiam produzir efeitos em procedimentos realizados perante o Departamento de Trânsito do Paraná (Detran-PR) e companhias de seguros.

Suspeita de acobertamento do tráfico

Simultaneamente à segunda fase da Via Pix, o Gaeco cumpriu três mandados de busca e apreensão em residências de três pessoas em Jaguariaíva. As medidas fazem parte de uma investigação sobre um suposto esquema de tráfico de drogas identificado após a análise das provas obtidas na primeira fase. Segundo o Ministério Público, há suspeita de que a atividade contava com o possível acobertamento de um dos policiais investigados.

Motoristas devem denunciar cobranças

Albanez orientou os motoristas a não efetuarem qualquer pagamento exigido irregularmente durante uma abordagem. Caso o condutor seja autuado ou tenha o veículo apreendido de forma que considere indevida, a recomendação é procurar posteriormente a Corregedoria da Polícia Militar ou o Ministério Público.

Comprovantes de transferências, mensagens, horários, locais das abordagens, imagens e identificação das equipes podem auxiliar a investigação. Segundo o promotor, foram justamente as denúncias apresentadas por motoristas que possibilitaram o início da Operação Via Pix. As investigações continuam. O afastamento cautelar não representa condenação, e todos os investigados têm direito à defesa.

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Heryvelton Martins
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Heryvelton Martins
Jonalista formado pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) com experiência em jornalismo diário e cobertura política da região dos Campos Gerais do Paraná.
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