Problemas no ombro e na mão crescem com excesso de telas e má postura
Consultórios de ortopedia registram aumento de pacientes com tendinite, bursite e síndrome do túnel do carpo associadas ao uso prolongado de celular e notebook.

Consultórios de ortopedia registram aumento de pacientes com tendinite, bursite e síndrome do túnel do carpo associadas ao uso prolongado de celular e notebook. Hábitos adquiridos no home office e no consumo de redes sociais estão no centro do fenômeno.
A cena se repete em consultórios de todo o país. Pacientes chegam com dor persistente no ombro, formigamento nos dedos, travamento do polegar ao acordar. Muitos atribuem o problema ao trabalho, ao esporte ou à idade. Quando o médico pergunta quanto tempo a pessoa passa olhando para o celular ou para a tela do notebook, a resposta quase sempre é a mesma: mais do que gostaria de admitir.
O Brasil ocupa a segunda posição mundial em tempo diário de tela, atrás apenas da África do Sul. Pesquisa da Electronics Hub feita a partir de dados do Digital 2024: 5 billion social media users, da We Are Social e Meltwater, mostra que o brasileiro passa em média 9 horas e 13 minutos por dia conectado, sendo cerca de 3 horas dedicadas exclusivamente a redes sociais.
Um levantamento mais recente, o Consumer Pulse da Bain & Company, realizado em janeiro de 2025 com 2 mil brasileiros, confirma a mesma média de 9 horas diárias online e aponta que o próprio usuário começa a perceber o desconforto dessa hiperconexão.
O problema não é só psicológico. Ortopedistas, cirurgiões de mão e fisioterapeutas veem, nos últimos anos, um aumento de queixas ligadas diretamente à forma como as pessoas seguram o celular, digitam no teclado e ajustam o corpo à mesa improvisada do home office.
A consequência é uma geração nova de lesões que até pouco tempo atrás estava restrita a profissionais de linha de produção ou operadores de digitação intensiva.
O peso invisível da cabeça baixa
A cabeça de um adulto pesa, em média, entre 4,5 e 5,4 quilos em posição neutra. Quando o pescoço se inclina para frente para olhar o celular, a carga sobre a coluna cervical e os ombros aumenta progressivamente.
Estudos citados pela Harvard Medical School e replicados em publicações da Universidade de São Paulo indicam que essa força pode chegar a 22 quilos com a cabeça inclinada a 45 graus e a cerca de 27 quilos em angulações mais extremas. É como sustentar uma criança pequena apoiada na nuca ao longo do dia.
O neurocirurgião Marcelo Amato, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, chama a condição de síndrome de text neck. A descrição clínica inclui dores na parte superior dos ombros, tensão na região cervical e rigidez que, em casos crônicos, pode evoluir para hérnia de disco e osteófitos, popularmente conhecidos como bico de papagaio.
Nos ombros, o impacto é duplo. A postura em flexão prolongada encurta a musculatura peitoral e enfraquece os romboides e o trapézio, gerando desequilíbrio que sobrecarrega a articulação.
Movimentos repetitivos com o braço levantado, como segurar o celular na altura do rosto por longos minutos, pressionam tendões do manguito rotador e a bursa subacromial. O resultado é dor noturna, dificuldade para levantar o braço e, em parte dos casos, tendinite ou bursite já instalada.
Dor no polegar, formigamento no punho
Na mão e no punho, o padrão é diferente. Aqui, o que predomina é o movimento repetitivo. Os polegares foram recrutados para uma função que o corpo humano não previa: digitar centenas de mensagens por dia em uma tela de vidro.
Uma meta-análise recente, baseada na revisão de mais de onze estudos, confirmou que o uso intenso de smartphones está associado a tendinites, tenossinovites e risco elevado de síndrome do túnel do carpo.
Como apontam ortopedistas de ombro no Brasil, a dor muitas vezes começa no punho, sobe pelo antebraço, chega à escápula e só depois faz o paciente procurar ajuda. Até esse momento, a lesão já costuma estar instalada há meses.
A fisioterapeuta Walkíria Brunetti, em entrevista técnica sobre o tema, explicou que a associação entre postura inadequada do pescoço e movimento repetitivo do polegar é a combinação mais comum nos consultórios, e afeta desde adolescentes até profissionais na casa dos cinquenta.
Pesquisa conduzida pela Universidade Politécnica de Hong Kong comparou dois grupos, um de usuários intensivos de smartphone, acima de cinco horas diárias, e outro de usuários moderados.
O primeiro grupo apresentou significativamente mais dor nas mãos, nos punhos e no pescoço. O estudo reforçou o que os ortopedistas brasileiros relatam na prática: o limite de tolerância do corpo não é a idade, é o tempo acumulado de uso.
Home office virou fábrica de lesões
Dados do IBGE mostram que 155 milhões de brasileiros acima de 10 anos têm celular para uso pessoal, o equivalente a 84,4% da população nessa faixa etária. Em 2021, o tempo médio de uso diário saltou 30% em relação ao período anterior à pandemia, segundo levantamento citado pelo Jornal da USP. A adoção ampla do trabalho remoto contribuiu para consolidar o novo padrão.
Em Ponta Grossa e nos Campos Gerais, plataformas de vagas registram dezenas de oportunidades em regime home office ou híbrido, o que ajuda a explicar por que a demanda por atendimento ortopédico especializado na região cresceu.
O problema é que a maioria das pessoas montou o escritório em casa sem qualquer planejamento ergonômico. Mesa de jantar como estação de trabalho, notebook sem suporte, cadeira da sala, tela abaixo da linha dos olhos. Em oito horas por dia, cinco dias por semana, a postura errada vira hábito e o hábito vira lesão.
Na opinião dos melhores ortopedistas de mão no Brasil, o erro mais frequente está em ignorar os primeiros sinais. Dor que aparece ao fim do expediente e passa durante a noite é interpretada como cansaço normal. Formigamento ocasional no dedo indicador ou no polegar é atribuído à posição de dormir.
Quando o paciente finalmente procura o especialista, o quadro já evoluiu para tendinopatia crônica, inflamação da bainha sinovial ou compressão nervosa consolidada, casos em que o tratamento conservador perde eficácia e a cirurgia passa a ser considerada.
O que a ortopedia moderna consegue oferecer
A boa notícia é que o arsenal terapêutico para problemas do ombro e da mão avançou de forma significativa nas últimas duas décadas. Em Goiânia, que se consolidou como um dos polos brasileiros de turismo médico em ortopedia, com cerca de 57% dos visitantes chegando à cidade para tratamento de saúde, centros especializados oferecem desde medicina regenerativa com PRP e células mesenquimais até cirurgias minimamente invasivas por videoartroscopia.
No ombro, técnicas de artroscopia permitem reparar rupturas do manguito rotador, tratar luxações recorrentes e descomprimir a articulação com incisões de poucos milímetros. A recuperação costuma ser mais rápida do que na cirurgia aberta tradicional, e o retorno às atividades de vida diária acontece, em boa parte dos casos, em algumas semanas.
Conforme destaca Dr. Henrique Bufaiçal, que atende em Goiânia com foco em cirurgia da mão aliando sua bagagem nacional e internacional a um atendimento humanizado e tecnicamente eficaz, na cirurgia da mão, os avanços em microcirurgia transformaram procedimentos antes considerados complexos em intervenções ambulatoriais.
A liberação do túnel do carpo, a cirurgia do dedo em gatilho e o tratamento da rizartrose, que é a artrose da base do polegar, podem ser feitas com técnicas endoscópicas ou com incisões mínimas, preservando a função e reduzindo o tempo de afastamento das atividades profissionais.
Quando procurar ajuda e o que observar
A recomendação quase unânime entre especialistas é simples: dor persistente por mais de duas a três semanas, com piora à noite ou ao executar movimentos específicos, merece avaliação. O mesmo vale para formigamento, perda de força, travamento articular e estalos acompanhados de dor. Esperar o sintoma piorar para agendar consulta é a principal causa de cronificação.
Na hora de escolher o profissional, alguns critérios ajudam. Formação com RQE, o Registro de Qualificação de Especialista, no Conselho Regional de Medicina garante que o médico concluiu residência ou título específico na subespecialidade.
Participação em sociedades reconhecidas, como a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, a Sociedade Brasileira de Cirurgia de Ombro e Cotovelo e a Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão, sinaliza vínculo com educação médica continuada. Volume cirúrgico e atuação em hospitais com estrutura para procedimentos minimamente invasivos também são indicadores relevantes.
Pacientes dos Campos Gerais que buscam referência para casos mais complexos frequentemente são orientados a considerar centros em capitais próximas, onde a concentração de subespecialistas é maior.
Entre os melhores ortopedistas de ombro com atuação em cirurgia minimamente invasiva, estão profissionais que integram redes de ensino, atuam como preceptores em serviços de treinamento avançado e publicam casos clínicos em congressos nacionais.
A lógica vale também para os cirurgiões de mão, que costumam ter formação complementar em centros europeus ou norte-americanos, onde a microcirurgia tem tradição mais antiga.
Prevenção é possível, mas exige mudança de hábito
A orientação ergonômica básica é conhecida, mas pouco praticada. Manter o celular na altura dos olhos em vez de olhar para baixo. Apoiar o notebook em suporte quando for trabalhar por mais de uma hora.
Usar teclado e mouse externos. Fazer pausas de cinco minutos a cada meia hora, com alongamento de punhos, ombros e pescoço. Alternar as mãos ao digitar no celular. Usar os recursos de ditado por voz sempre que possível, especialmente em mensagens longas.
Dr. Thiago Caixeta, cuja prática cirúrgica em Goiânia é focada no tratamento artroscópico do ombro e do cotovelo, com ênfase em recuperação acelerada, explica que atividade física regular, com foco em fortalecimento da musculatura das costas e do core, ajuda a compensar o padrão postural do trabalho sedentário.
Exercícios específicos para a cintura escapular, guiados por fisioterapeuta ou educador físico, são particularmente úteis para quem já sente os primeiros sinais de tensão no trapézio e na base do pescoço.
O que os dados do IBGE, da Pesquisa Nacional de Saúde e das clínicas ortopédicas mostram em comum é que o corpo cobra a conta do tempo de tela com atraso. A dor do presente costuma ser o resultado de dois, três, cinco anos de uso acumulado sem pausa. Reduzir esse tempo, ou ao menos organizar melhor a forma como ele é usado, deixou de ser conselho genérico e virou medida concreta de saúde ortopédica.
Em regiões como os Campos Gerais, onde a indústria, o agronegócio e o setor de serviços convivem com crescimento do trabalho digital, essa conta tende a ficar mais pesada nos próximos anos. O diagnóstico precoce, feito por profissional com formação específica, segue sendo o melhor caminho para evitar que uma tendinite simples vire uma cirurgia complexa.























