Seu filho baixou isso? O que é o Zangi e por que o aplicativo virou alvo em casos de abuso infantil
Cadastro sem telefone, mensagens criptografadas e ausência de dados armazenados nos servidores dificultam a identificação dos usuários

O Zangi é um aplicativo de mensagens instantâneas que permite trocar textos, arquivos e realizar chamadas de voz e vídeo. Embora seja apresentado como uma ferramenta voltada à privacidade, algumas de suas características passaram a chamar a atenção das autoridades por dificultarem a identificação de criminosos envolvidos em aliciamento e abuso sexual de crianças.
Diferentemente de aplicativos como WhatsApp e Telegram, o Zangi não exige número de telefone, chip ou endereço de e-mail para criar uma conta. Ao se cadastrar, o usuário recebe uma identificação numérica própria dentro da plataforma.
Segundo a própria empresa, as conversas possuem criptografia de ponta a ponta e o histórico das mensagens fica armazenado apenas no aparelho. O Zangi afirma também que não guarda dados das comunicações em seus servidores. Essas características protegem usuários legítimos contra invasões e vigilância, mas também podem ser exploradas por criminosos interessados em esconder a própria identidade e dificultar o rastreamento das conversas.
Por que criminosos utilizam o Zangi?
Não existem dados oficiais que permitam afirmar que todos os usuários do Zangi estejam envolvidos em práticas ilegais ou que o aplicativo tenha sido criado para essa finalidade. Entretanto, investigações mostram que criminosos sexuais passaram a explorar os mecanismos de privacidade oferecidos pela plataforma.
Entre as características que dificultam as investigações estão:
- criação de contas sem telefone ou e-mail;
- uso de uma identificação virtual;
- criptografia de ponta a ponta;
- ausência do histórico das mensagens nos servidores;
- armazenamento das conversas somente nos aparelhos dos usuários.
Em muitos casos, os criminosos fazem o primeiro contato com as vítimas em redes sociais ou jogos online. Depois de conquistar a confiança da criança, pedem que a conversa seja transferida para o Zangi, onde a comunicação é mais reservada.
Caso investigado em Ponta Grossa
Na manhã desta terça-feira (25), o Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes (Nucria) cumpriu um mandado de busca e apreensão contra um homem de 23 anos na região do bairro Paraíso, em Ponta Grossa. Segundo a Polícia Civil do Paraná (PCPR), a investigação começou depois que duas crianças, com idades entre 8 e 9 anos, receberam mensagens do investigado pelo Instagram. Durante as conversas, ele teria solicitado fotografias de cunho sexual.
As mensagens foram preservadas e anexadas ao inquérito. Conforme a delegada Ana Paula Cunha Carvalho, responsável pelo Nucria de Ponta Grossa, o homem confessou durante o interrogatório que enviou as mensagens e pediu as imagens. Um celular foi apreendido durante a operação, realizada com apoio da Polícia Científica do Paraná. O aparelho será submetido à perícia para verificar a existência de outros elementos ou possíveis crimes.
Até o momento, a PCPR não informou que o Zangi tenha sido utilizado nesse caso específico. A ocorrência, entretanto, demonstra como as abordagens podem começar em redes sociais populares e reforça a importância do acompanhamento dos contatos mantidos por crianças na internet. O caso foi divulgado pelo BnT Online.
Justiça determinou bloqueio no Brasil
Em fevereiro de 2026, a 14ª Vara Criminal de Maceió determinou a suspensão do Zangi em todo o território nacional. Conforme o Tribunal de Justiça de Alagoas, a empresa deixou de fornecer informações necessárias para identificar um investigado por armazenamento e disseminação de material de abuso sexual infantojuvenil e aliciamento de menores.
A decisão estabeleceu multa de R$ 500 mil e determinou que a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), provedores de internet, Google e Apple adotassem providências para bloquear o serviço e retirar o aplicativo das lojas virtuais. A suspensão foi determinada até que a empresa cumprisse integralmente a ordem judicial.
O aplicativo também apareceu em uma investigação conduzida pela Polícia Federal em São Paulo. Em março de 2026, o Ministério Público Federal informou que um homem condenado a 21 anos e dez meses de prisão utilizou diferentes plataformas, entre elas o Zangi, para compartilhar arquivos de abuso sexual infantil. Mais de duas mil imagens e vídeos foram encontrados no celular do réu.
Como pais e responsáveis podem agir
Pais e responsáveis devem observar aplicativos desconhecidos instalados nos aparelhos das crianças, mudanças repentinas de comportamento e pedidos para manter conversas em segredo. Também é importante orientar os menores a nunca enviarem imagens íntimas ou aceitarem presentes virtuais de desconhecidos.
Ao identificar uma situação suspeita, o conteúdo não deve ser compartilhado, nem mesmo como forma de alerta. A recomendação é preservar as informações disponíveis e procurar imediatamente a Polícia Civil, o Conselho Tutelar ou o Disque 100. Crimes com possível repercussão internacional também podem ser denunciados pelo canal Comunica PF.
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