Sua compra do mês pode ficar mais cara por conta do El Niño
Fenômeno climático deve mexer com a produção de café, milho, trigo, frutas, hortaliças, carne e leite. No Paraná, maior preocupação é com o excesso de chuva sobre lavouras de inverno, especialmente trigo e aveia

O avanço do El Niño voltou a preocupar produtores rurais, economistas e consumidores brasileiros. O fenômeno climático, provocado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, altera o regime de chuvas e temperaturas em várias regiões do mundo e pode reduzir a oferta de alimentos no Brasil nos próximos meses.
A consequência mais direta para a população pode aparecer no supermercado. Com menor produção, atraso no plantio, perda de qualidade ou aumento dos custos no campo, itens como café, milho, frutas, hortaliças, leite, carne, trigo e derivados podem ficar mais caros.
Segundo o Centro de Previsão Climática da NOAA, dos Estados Unidos, as condições de El Niño já estão presentes e devem se fortalecer no inverno do Hemisfério Norte, com 63% de chance de um evento muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. A própria NOAA ressalta, porém, que mesmo eventos muito fortes não produzem impactos iguais em todos os lugares.
Afeta o Paraná?
Sim. O Paraná pode ser afetado, mas de forma diferente de outras regiões do país. Enquanto áreas do Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste tendem a sofrer mais com seca e calor, a Região Sul costuma registrar aumento no volume de chuva durante episódios de El Niño, principalmente no inverno e na primavera. O excesso de umidade pode atrapalhar o manejo agrícola, favorecer doenças nas plantações e prejudicar a qualidade dos grãos.
No caso paranaense, o alerta principal recai sobre as culturas de inverno, especialmente o trigo e a aveia. Nota técnica do Inmet aponta que, em anos de El Niño, o Paraná apresentou 40% de probabilidade de produtividade do trigo abaixo da média e outros 40% de ficar dentro da média. Para a aveia, o risco é maior: 60% de probabilidade de produtividade abaixo da média no estado.
Trigo preocupa produtores paranaenses
O trigo é um dos pontos mais sensíveis para o Paraná. O plantio da safra 2026 chegou a 84% dos 722 mil hectares previstos, conforme levantamento do Deral. A estimativa atual é de produção de 2,4 milhões de toneladas, mas o setor acompanha com atenção a possibilidade de excesso de chuva nos próximos meses.
A preocupação é que chuvas acima da média durante fases importantes da lavoura possam comprometer a qualidade dos grãos. Isso afeta diretamente a indústria de moagem, já que trigo com perda de qualidade pode ser rejeitado para uso industrial. O problema pode obrigar moinhos a buscar produto em outras regiões, pressionando custos e, eventualmente, o preço de massas, pães, farinha e derivados.
O cenário é ainda mais delicado porque a demanda da indústria moageira paranaense é estimada em 3,9 milhões de toneladas, enquanto a produção prevista é de 2,4 milhões. Ou seja, mesmo sem perdas climáticas relevantes, o estado já teria uma diferença de cerca de 1,5 milhão de toneladas entre produção e necessidade de consumo.
Quais alimentos podem ficar mais caros?
O café está entre os produtos mais ameaçados. A irregularidade das chuvas e o calor intenso podem prejudicar a florada, reduzir a qualidade dos grãos e afetar a produção futura. Como o Brasil é um dos maiores produtores e exportadores do mundo, qualquer perda relevante tende a repercutir no mercado interno e externo.
O milho também preocupa. O grão é essencial não apenas para alimentação humana, mas também para ração animal. Se houver redução na produção ou atraso no plantio, o impacto pode chegar à carne, ao leite, aos ovos, aves e suínos, já que a alimentação dos animais fica mais cara.
As hortaliças costumam sentir rapidamente mudanças bruscas no clima. Tomate, batata, cebola, cenoura e verduras podem sofrer com excesso de chuva, calor forte ou dificuldade de manejo. Por isso, esses itens geralmente apresentam oscilações mais rápidas de preço.
Frutas também entram na lista de risco. Laranja, uva, maçã, manga e mamão podem ser afetados dependendo da região produtora. No Sul, o excesso de umidade pode favorecer doenças e perda de qualidade. Em outras regiões, calor e seca podem prejudicar a irrigação e o desenvolvimento dos frutos.
Leite e carne também podem subir
Na pecuária, os impactos dependem do equilíbrio entre pastagem, temperatura e disponibilidade de água. Em regiões com seca, a falta de pasto dificulta o ganho de peso dos animais e pode reduzir a produção de leite. Já o calor excessivo provoca estresse térmico, fazendo com que os animais comam menos e produzam menos.
Mesmo no Paraná, onde o problema tende a ser mais ligado ao excesso de chuva do que à seca, o setor pode sentir reflexos indiretos. Se o milho e outros insumos usados na ração subirem, o custo de produção de leite, aves, suínos e bovinos também pode aumentar.
Paraná pode ter perdas, mas também pontos positivos
Apesar dos riscos, o El Niño não significa prejuízo automático para todas as culturas. Em algumas situações, mais chuva pode favorecer lavouras que dependem de boa disponibilidade hídrica, principalmente no começo do ciclo. O problema aparece quando a chuva vem em excesso, na hora errada ou acompanhada de baixa luminosidade, doenças e dificuldade para entrar com máquinas no campo.
Para o Paraná, o ponto central será o comportamento do clima entre o fim do inverno e a primavera. Se as chuvas forem bem distribuídas, parte das lavouras pode atravessar o período sem grandes perdas. Mas, se houver excesso de precipitação em fases como floração, enchimento de grãos e maturação, o risco de queda de produtividade e perda de qualidade aumenta.
Pressão pode chegar ao bolso do consumidor
O impacto no preço dos alimentos não acontece de uma vez. Primeiro, o clima afeta a lavoura, a colheita ou a qualidade do produto. Depois, a redução de oferta pressiona atacado, indústria e varejo. Por isso, economistas avaliam que os efeitos podem aparecer de forma gradual nos próximos meses e também em 2027, dependendo da intensidade do fenômeno.
No Paraná, os consumidores devem ficar atentos principalmente a trigo e derivados, hortaliças, leite, carnes e produtos que dependem de grãos na cadeia produtiva. O tamanho do impacto, porém, ainda depende da intensidade real do El Niño e da distribuição das chuvas no estado.























