Dos trilhos físicos aos trilhos digitais – O Vale dos Trilhos por Tônia Mansani e Silvestre Labiak Junior
O Vale dos Trilhos conecta inovação, tecnologia e empreendedorismo para transformar Ponta Grossa em referência em desenvolvimento inteligente.
Há mais de um século, os trilhos que cortam Ponta Grossa contavam uma história de conexão: eram eles que ligavam a cidade ao litoral, ao interior, aos mercados, transformando um entroncamento ferroviário em polo econômico dos Campos Gerais. A Estação Saudade, é o símbolo físico dessa vocação, um lugar por onde passavam pessoas, mercadorias e, sobretudo, oportunidades. Os capítulos anteriores desta obra percorreram a Ponta Grossa que cresce em concreto, asfalto e infraestrutura: ruas pavimentadas, saneamento ampliado, mobilidade urbana repensada. Este capítulo propõe uma virada de perspectiva. Se a cidade maior se constrói também com trilhos, pontes e estradas, ela se projeta para o futuro por meio de um outro tipo de infraestrutura, menos visível, mas igualmente decisiva: a infraestrutura do conhecimento, da tecnologia e da inovação.
Não é uma ruptura, é uma continuidade. Os mesmos trilhos que uniram Ponta Grossa ao mundo no século XIX voltam a fazer sentido, agora como metáfora e como marca: o Vale dos Trilhos, ecossistema de inovação que a cidade vem construindo nos últimos anos, herda o nome da vocação ferroviária para descrever uma nova rede de conexões, entre atores de governo, conhecimento, fomento, habitats, institucional, empresarial. Dos trilhos físicos aos trilhos digitais, o percurso é o mesmo: unir pontos distantes e fazer circular aquilo que move o desenvolvimento. Antes eram cargas e passageiros. Agora são ideias, dados, conhecimento e negócios.
A Agência de Inovação como motor do ecossistema local
Toda transformação sustentável precisa de uma instituição que a organize, e essa foi uma escolha deliberada da gestão municipal. Antes de 2021, iniciativas de inovação. Empreendedorismo e desenvolvimento que aconteciam de forma dispersa pela cidade em universidades, em associações empresariais, em projetos pontuais que nasciam e morriam com cada gestão. Faltava um vetor único, com orçamento, corpo técnico e continuidade capaz de sobreviver a mudanças de conjuntura. Foi para preencher essa lacuna que a administração municipal decidiu criar a Agência de Inovação e Desenvolvimento, instituída pela Lei Municipal nº 14.117, de 1º de dezembro de 2021, um marco que colocou a inovação no mesmo patamar de prioridade estratégica reservado historicamente a áreas como saúde, educação e infraestrutura.
A criação da Agência não foi um gesto simbólico: foi uma decisão de governança que redesenhou a forma como o poder executivo trata o desenvolvimento econômico. Ao instituir um órgão dedicado exclusivamente a esse tema, a gestão assumiu o compromisso de tratar inovação como política de Estado municipal, e não como iniciativa de ocasião. Coube à Agência a missão de formular, implementar e monitorar as políticas públicas municipais de desenvolvimento sustentável, inovação, empreendedorismo e qualificação dos serviços públicos, um mandato amplo, que exigiu da administração vontade política para concentrar recursos, articular secretarias e sustentar o projeto ano após ano, mesmo quando os resultados ainda não eram visíveis.
Na prática, isso significou assumir uma função de articulação permanente entre a Prefeitura e os demais atores do ecossistema, com a missão de atrair novos investimentos e consolidar os já existentes, sempre que contribuam estrategicamente para o desenvolvimento socioeconômico do município. É um modelo de gestão pública que se compara ao de agências de inovação e desenvolvimento presentes em cidades referência no país, mas construído sob medida para a realidade e as potencialidades dos Campos Gerais.
Os resultados começaram a aparecer de forma consistente. Em poucos anos, Ponta Grossa passou a ser reconhecida nacional e internacionalmente por essa política estruturada de inovação. A cidade foi selecionada pela quarta vez consecutiva entre as Smart21 Communities of the Year, ranking do Intelligent Community Forum (ICF) que reconhece as 21 comunidades mais inteligentes do mundo, sendo, ao lado de Assaí e Londrina as únicas representantes da América Latina na lista mais recente. Em 2025, o município também conquistou o Selo Ouro do Prêmio Connected Smart Cities na categoria Ecossistemas de Inovação, reconhecimento que a coloca entre as cidades brasileiras que mais avançam em inovação, transformação digital e desenvolvimento sustentável. E, no Edital de Credenciamento de Ambientes Promotores de Inovação de 2024, Ponta Grossa assumiu a liderança do Paraná, com 64 ambientes credenciados, entre centros de inovação, hubs, incubadoras e pré-incubadoras.
Esses reconhecimentos não são apenas selos para vitrine institucional. Eles traduzem, em linguagem de rankings internacionais, algo que os empreendedores e pesquisadores da cidade já sentiam no dia a dia: Ponta Grossa deixou de tratar inovação como discurso e passou a tratá-la como política de Estado municipal, com lei, orçamento, estrutura e continuidade.
Ecossistema de startups
Se a Agência de Inovação é o motor, o ecossistema é onde esse motor produz seus efeitos mais visíveis sobre a economia local. Um dos símbolos que materialização essa mudança é o Estação Hub, inaugurado em 5 de junho de 2025 no edifício da antiga Estação Arte, construção de 1896 tombada como patrimônio histórico da cidade. A escolha do local não foi apenas simbólica: Onde antes passavam trens, hoje funcionam um laboratório de ideias, estúdio de podcast, salas de reunião, espaços de capacitação para startups e uma arena para hackathons, um ponto de encontro para todos os atores do ecossistema de inovação da cidade.
Não é exagero dizer que o Estação Hub é, arquitetonicamente, a materialização exata do título deste capítulo: um edifício erguido para os trilhos físicos do século XIX, requalificado para abrigar os trilhos digitais do século XXI. A mesma vocação de conectar lugares distantes, antes cumprida por locomotivas, hoje é cumprida por startups, redes de mentoria, programas de formação e políticas públicas de inovação.
Tecnologia conectando empresas e sociedade
Um ecossistema de inovação só se sustenta quando a tecnologia deixa de ser assunto de nicho e passa a fazer parte da vida da cidade nas escolas, nos bairros, no cotidiano das pessoas que talvez nunca venham a abrir uma startup, mas que são, ainda assim, beneficiárias diretas desse movimento. Ponta Grossa tem investido nessa dimensão mais ampla por meio dos Laboratórios de Aprendizagem Criativa (LAC), espaços implantados em escolas da rede municipal para que crianças e adolescentes trabalhem inovação, tecnologia e criatividade desde cedo. Já são mais de 50 laboratórios em funcionamento, o que faz da educação básica um dos pilares menos óbvios, porém mais estratégicos, do ecossistema de inovação da cidade: é ali que se formam os empreendedores, pesquisadores e profissionais de tecnologia da próxima década.
É esse o sentido mais profundo da transição que dá título a este capítulo. A infraestrutura física, os trilhos, as estradas, os prédios históricos requalificados continua sendo condição necessária para o desenvolvimento. Mas ela deixou de ser suficiente. O verdadeiro diferencial competitivo de uma cidade como Ponta Grossa, no século XXI, está na capacidade de conectar essa base física a uma infraestrutura de conhecimento, dados e relacionamentos que gera valor continuamente e que, ao contrário do concreto, se multiplica quanto mais é compartilhada.
Vale dos Trilhos: o novo polo de inovação de Ponta Grossa
Todos esses elementos a Agência de Inovação, o ecossistema de startups, a tecnologia a serviço da sociedade, convergem para um mesmo projeto: o Vale dos Trilhos, marca de política pública pactuada em 2021 e instituída por lei municipal para identificar e organizar o ecossistema de inovação de Ponta Grossa. Mais do que um nome, o Vale dos Trilhos é uma arquitetura institucional que conecta os atores do ecossistema de inovação em um ambiente de cooperação voltado à geração de novas ideias, projetos e negócios, orientado por seis eixos norteadores: comunidade participativa e gestão democrática; democratização tecnológica e inclusão digital; educação e empreendedorismo; fomento e desenvolvimento; integração e cooperação; e simplificação e desburocratização.
O reconhecimento que a cidade vem recebendo, o Selo Ouro de Ecossistemas de Inovação, a permanência recorrente entre as Smart21 Communities, a liderança estadual em ambientes credenciados de inovação, não é ponto de chegada, mas evidência de que Ponta Grossa está no caminho certo. O Vale dos Trilhos consolida-se como o novo polo de inovação da cidade exatamente porque não se limita a atrair empresas de tecnologia: ele reorganiza a forma como a cidade pensa seu próprio desenvolvimento, unindo herança histórica, capital humano formado localmente e uma institucionalidade que sobrevive a mudanças de conjuntura.
Se a primeira parte desta obra mostrou a Ponta Grossa que se torna maior em território, população e infraestrutura, este capítulo mostrou a outra metade dessa equação: uma cidade que também cresce em capacidade de gerar, reter e compartilhar conhecimento. Os trilhos que um dia trouxeram progresso pela força do aço e do vapor continuam cumprindo sua função, agora movidos por dados, ideias e pela energia de quem empreende. E é sobre essa mesma trilha, da rota dos tropeiros aos trilhos da inovação, que Ponta Grossa segue construindo o seu futuro.























