Caixa de fósforo, por Renata Régis Florisbelo
Nas tardes quentes ele saia de casa pela porta de cozinha em ar sorrateiro. Peraltice de criança anunciada. Nas mãos ainda infantis, a caixa de fósforos. Em outro cenário a menina gostava de pegar os palitos da caixa, acender e deixar faiscar para posteriormente pegar fogo. Aflitivo e ambíguo: ver aquela cabeça em fogo arder […]

Nas tardes quentes ele saia de casa pela porta de cozinha em ar sorrateiro. Peraltice de criança anunciada. Nas mãos ainda infantis, a caixa de fósforos.
Em outro cenário a menina gostava de pegar os palitos da caixa, acender e deixar faiscar para posteriormente pegar fogo. Aflitivo e ambíguo: ver aquela cabeça em fogo arder em chamas também lhe consumia a própria cabeça no dilema em promover a encurtada vida de um palito de fósforo, aceso por egoísmo contemplativo. Queimar ou não queimar? A cabeça do palito impulsionava o ponto de interrogação.
“O fogo e as plantas”, exclamava o guri com ar de cientista maluco. E tudo que via pela frente virava chama acesa. Uma cabeça que queria atear fogo na cabeça vegetal. O fósforo era a arma rudimentar para o deleite.
Caixa de palito de fósforo na mão, menina e menino em especulação: cabeças que ardem em contradição.
Autoria: Renata Regis Florisbelo
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