Candidatos trocam estados por vaga no Senado em 2026
A candidatura de Hélio Lopes ao Senado por Roraima exemplifica a estratégia de partidos em lançar nomes conhecidos fora de seus redutos eleitorais. A prática, permitida por lei, reacende o debate sobre representação estadual e fidelidade partidária.

Disputar o Senado por um estado diferente de onde pavimentaram a carreira não é novidade na política brasileira. A prática, no entanto, ganhou mais visibilidade nas eleições de 2026, com políticos nacionalmente conhecidos concorrendo fora de seus redutos eleitorais. Este ano, cada estado elege dois senadores.
Mesmo permitida pela legislação eleitoral, a prática reacende um debate sobre representação dos Estados no Senado, a movimentação em torno de um projeto nacional dos partidos e a escolha de nomes considerados ‘fiéis’ e competitivos pelas legendas. O tema também foi usado como ‘munição’ por adversários, principalmente para ataque a campanhas em São Paulo.
Hélio Lopes surpreende PL de Roraima
Hélio Lopes, por exemplo, foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro, mas transferiu o domicílio eleitoral para disputar uma das vagas ao Senado por Roraima. A decisão surpreendeu inclusive dirigentes do PL local, que afirmam ter tomado conhecimento da candidatura pela imprensa. Agora o PL tem dois candidatos pelo partido em Roraima.
No Partido Liberal, a tática de incluir nomes conhecidos na disputa – ainda que afastados do ‘berço eleitoral’ – se repete com Carlos Bolsonaro em Santa Catarina. A estratégia busca ampliar a bancada do partido no Senado com aliados de confiança da direção nacional.
Migração eleitoral não é novidade
Apesar de estar em evidência, migrações eleitorais não são novidade. Na primeira eleição após a redemocratização, em 1990, José Sarney transferiu o título do Maranhão, onde construiu a carreira, para se eleger senador pelo Amapá. O ex-presidente e senador José Sarney (PMDB-AP) foi o Senador que representou o Amapá por mais tempo: 24 anos.
📅🗳️Para concorrer ao Senado, o candidato não precisa ter nascido no Estado, mas deve comprovar domicílio eleitoral no local por, no mínimo, seis meses antes do pleito. Para as eleições de 2026, o prazo terminou em 4 de abril.
Por que partidos buscam nomes de fora
A cientista política Graziella Testa explica que o Senado ganhou peso inédito nos últimos anos por deter o poder exclusivo de aprovar indicações ao Supremo Tribunal Federal (STF) e julgar processos de impeachment de ministros. Como a fidelidade partidária é flexível e senadores podem trocar de legenda sem perder o mandato, os partidos precisam de aliados que não os “traiam” em votações cruciais. A saída tem sido usar a regra dos seis meses de domicílio para lançar nomes de estrita confiança da direção nacional das cúpulas.
Desempenho de Lopes em Roraima
Deputado federal mais votado do Rio de Janeiro em 2018 (com mais de 340 mil votos), e reeleito em 2022, Hélio Lopes chegou a Roraima e aparece em 7º lugar entre os 13 candidatos ao Senado, conforme na última pesquisa Quaest, divulgada nesta sexta-feira (25). Segundo o candidato, a candidatura ao Senado em Roraima atende a uma ‘missão’ dada por Jair Bolsonaro. Hélio é aliado histórico do ex-presidente, que cumpre prisão por tentativa de golpe de Estado desde novembro de 2025.
Vínculo com Roraima e restrições judiciais
Nascido em Queimados (RJ), Hélio Lopes foi aprovado em 1991 para ingressar no Exército como sargento. Foi lá que conheceu Jair Bolsonaro, de quem ganhou o apelido de “irmão que a vida me deu”. A indicação do nome dele para disputar em Roraima partiu do próprio ex-presidente.
Para defender o vínculo histórico com Roraima, o candidato afirma aos eleitores que atuou na região amazônica e fez um curso militar em Boa Vista, em 1999. Reforça ainda ter enviado emendas para laboratórios de informática em Roraima antes mesmo de transferir o domicílio eleitoral.
A Justiça Eleitoral, porém, impôs restrições à campanha de Lopes. A juíza Joana Sarmento de Matos o proibiu de usar o nome “Bolsonaro” na urna e na propaganda eleitoral, ao avaliar que o sobrenome geraria confusão e vantagem indevida. Com isso, ele concorre com o nome de registro: “Hélio Fernando Barbosa Lopes”.
O cenário em Roraima ilustra a complexidade das candidaturas fora do domicílio original, que podem gerar resistência local e questionamentos sobre representatividade. O desfecho das eleições de 2026 mostrará se a aposta dos partidos em nomes nacionais renderá frutos no Senado.























