Economia, STF e corrupção: o que decide a eleição 2026
Em cenário de empate técnico, Lula e Flávio Bolsonaro disputam eleitores independentes. Economia é o fator decisivo, enquanto STF e corrupção têm impacto menor. Analistas apontam que aprovação de Lula compromete reeleição.

Em um cenário de empate técnico, com alternância de liderança numérica, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) concentram a maior parte das intenções de voto e tentam se consolidar entre uma parcela decisiva do eleitorado classificado como independente. A disputa pela Presidência em 2026 se afunila em torno de temas como economia, crise do STF e corrupção, mas nem todos têm o mesmo peso na decisão do voto.
Não se trata especificamente dos eleitores indecisos, que ainda não definiram o voto, nem de todos os classificados como não polarizados, categoria definida por diferentes metodologias dos institutos de pesquisa. É dentro desse universo menor, que não se identifica nem com Flávio, nem com Lula, que se observa um grupo mais específico, dos eleitores independentes, sem vínculo partidário e, portanto, com maior possibilidade de mudar de posição conforme aquilo que consideram mais importante para a própria vida.
Economia lidera preocupações do eleitor independente
Analistas ouvidos pela Gazeta do Povo afirmam que esses eleitores independentes atribuem pesos diferentes aos principais temas da eleição. A economia é o fator de maior impacto. A crise do STF e a corrupção entram no cálculo do voto, mas não com a mesma força.
Para Leonardo Barreto, sócio da Think Policy, o cenário de instabilidade institucional é periférico para essa camada. “As denúncias e pautas de corrupção geram manchetes, mas só ‘fazem preço’ na eleição porque as pessoas já estão insatisfeitas com sua situação econômica”, afirma.
O cientista político considera os indicadores de percepção econômica do governo “todos muito ruins” e diz que Lula não conseguiu transformar em ganho eleitoral medidas anunciadas ao longo do ano, como as iniciativas de crédito e consumo.
Pacote de bondades não reverte rejeição
Tais medidas, segundo levantamento da Gazeta do Povo, somaram R$ 187,2 bilhões somente em 2026, consolidados no chamado “pacote de bondades” ou “kit reeleição”. Desse total, R$ 176,7 bilhões, ou 94,4%, ficam fora do limite de crescimento das despesas previsto pelo arcabouço fiscal.
O Datafolha divulgado em 17 de setembro mostrou que 50% desaprovam o trabalho de Lula e 48% o aprovam. Na avaliação do governo, 42% consideram a gestão ruim ou péssima, 34% ótima ou boa e 23% regular.
Para Roberto Reis, estrategista eleitoral, a aprovação de Lula compromete sua reeleição. “Nunca nenhum presidente no Brasil foi reeleito abaixo de 35% de ótimo e bom”, diz. “Lula seria o primeiro que se reeleger com essa aprovação.”
STF e corrupção têm impacto limitado
“Assim, esse cenário consegue converter eleitores que declaravam voto branco ou nulo a votar em Flávio.” Para o eleitor de centro ou indeciso, contudo, o tema não move o voto, porque prevalece a percepção de que “todos são corruptos” e de que nenhuma instituição tem razão isoladamente.
A corrupção, por sua vez, atinge as duas candidaturas de maneira distinta. “As denúncias de corrupção podem ter um impacto maior no Flávio do que têm no Lula”, afirma Cila. Segundo ela, o eleitor de Lula tende a relativizar os casos quando percebe um benefício social ou econômico.
“O eleitor do Lula desculpa o Lula pelos casos de corrupção. Já o eleitor do Flávio, quase 50%, diz que poderia não votar nele por causa disso.”
Medidas de última hora têm efeito limitado
Para Leonardo Barreto, Lula também está recorrendo às últimas “cartas na manga” para tentar reverter a rejeição. Já Roberto Reis acredita que medidas desse tipo no atual momento têm efeito limitado.
“Qualquer bondade econômica tem que ser nos 18 primeiros meses do mandato. Não funciona lançar agora, em cima da hora. Não faz diferença nenhuma na cabeça do eleitor; pelo contrário, parece ser aproveitador”, afirma.
Fim da escala 6×1 pode ser trunfo
Uma das poucas agendas capazes de dialogar diretamente com a rotina desse eleitorado é, segundo ela, a eventual redução da jornada de trabalho, com o fim da escala 6×1.
Uma pesquisa do Instituto Locomotiva encontrou 67% dos brasileiros dizendo que a escala 6×1 prejudica a saúde mental e 62% apontando prejuízo à saúde física. O levantamento ouviu 1.030 pessoas, de 2 a 8 de junho, em todas as regiões do país.
Os números de Cila são maiores e ela acredita que o tema deve ser enfatizado na campanha na reta final do primeiro turno. “Eu tenho 74% dos brasileiros que apoiam o fim da escala 6×1”, afirma. “Creio que pode ser ainda um caminho para o presidente Lula falar com o eleitor dele.”
Mobilidade de votos favorece a direita
No segundo turno, no entanto, a pesquisadora lembra que Lula tem um mercado de voto muito reduzido para atrair. “A mobilidade de votos está concentrada na direita, enquanto Lula já reúne praticamente todo o eleitorado identificado com a esquerda e com avaliação positiva de seu governo”, afirma.
“Na prática, é uma campanha de campanha de oposição, em que mais da metade da população considera que o Lula não merece um novo mandato. Mas será definida no detalhe.”
Pesquisa Quaest, realizada de 3 a 6 de setembro de 2026, com 2.004 eleitores, em âmbito nacional, aponta o cenário de empate técnico. As entrevistas foram presenciais. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento foi registrado no TSE.
Com a disputa acirrada, os próximos passos das campanhas devem focar em temas que tocam diretamente o bolso e a rotina do eleitor independente. Acompanhe a cobertura completa no Boca no Trombone.























