Gaeco revela esquema de propina em rodovias e cita R$ 5 mil para fraudar bafômetro
Em entrevista exclusiva ao BnT Online, promotor detalhou pagamentos em dinheiro, Pix para contas de laranjas e combustível em troca da liberação de caminhões; operação teve alvo em Ponta Grossa

A operação do Gaeco em Ponta Grossa e outros municípios do Paraná revelou novos detalhes de um suposto esquema de cobrança sistemática de propina envolvendo policiais militares, principalmente agentes ligados à Polícia Rodoviária Estadual. Em entrevista exclusiva ao BnT Online, o promotor de Justiça Pedro Henrique Brazão Papaiz, do Gaeco de Guarapuava, afirmou que os investigados recebiam dinheiro em espécie, transferências via Pix para contas de terceiros e até combustível pago por empresas.
A terceira fase da Operação Rota 466 foi deflagrada nesta quinta-feira (8) e cumpriu 19 mandados de busca e apreensão. Quinze deles tiveram como alvos policiais militares. Segundo o promotor, parte dos agentes investigados atuava em postos da Polícia Rodoviária, entre eles o de Telêmaco Borba.
“Esses policiais estavam sistematicamente recebendo e cobrando propina em razão do exercício de suas funções”, afirmou Papaiz ao BnT.
Dinheiro, Pix e combustível
De acordo com o representante do Gaeco, a investigação identificou diferentes formas de pagamento das supostas vantagens indevidas. Os policiais receberiam valores em dinheiro, transferências via Pix feitas para contas de “laranjas” e também combustível. Em um dos formatos investigados, empresários permitiam que veículos particulares dos policiais fossem abastecidos na conta das empresas.
Em contrapartida, segundo o Gaeco, caminhões das transportadoras envolvidas deixariam de ser fiscalizados ao passarem pelos postos rodoviários. “Os empresários abasteciam o veículo dos policiais pela conta das empresas. Em contrapartida, os policiais deixavam de fiscalizar os caminhões dessas transportadoras”, explicou o promotor.
Gaeco cita fraude em bafômetro por R$ 5 mil
Durante a entrevista, Papaiz revelou ainda um dos casos considerados mais graves identificados durante as apurações. Segundo ele, em determinada ocorrência, policiais teriam permitido que outra pessoa realizasse o teste do bafômetro no lugar do motorista envolvido em um acidente.
O acordo, segundo a investigação, teria ocorrido em troca de R$ 5 mil. O promotor afirmou que o método de atuação se repetia em diferentes situações.
Conforme o Gaeco, quando os policiais constatavam uma infração administrativa de trânsito ou uma situação que poderia resultar em flagrante, como embriaguez ao volante, eles deixariam de aplicar a penalidade ou realizar o procedimento criminal mediante pagamento de propina.
Boletins de acidentes também teriam sido alterados
Outra prática investigada envolve alterações nos chamados Boletins de Acidente de Trânsito Eletrônico Unificado (Bateu). De acordo com Papaiz, policiais teriam recebido dinheiro para modificar a classificação dos danos sofridos por veículos.
Em casos em que o dano seria considerado de média ou grande monta, o registro teria sido alterado para pequena monta, evitando consequências administrativas mais severas ao proprietário. Para o promotor, havia uma espécie de “mercantilização” das funções públicas.
Segundo ele, diferentes atribuições dos policiais acabavam sendo utilizadas para obtenção de vantagens financeiras.
Conduta teria se repetido sistematicamente
Questionado pelo BnT Online sobre a possibilidade de os episódios serem casos isolados, o promotor descartou essa hipótese dentro do conjunto investigado. “É um modus operandi que se repete”, afirmou. Segundo Papaiz, o uso de contas de terceiros para recebimento de valores, a adulteração dos registros de acidentes e a negociação para deixar de aplicar multas ou realizar flagrantes apareceram repetidamente ao longo das três fases da investigação.
“Infelizmente, a gente vê uma conduta criminosa, um desvio de padrão do que seria o correto da atuação do policial, se repetindo de forma sistemática”, declarou.
Operação começou após denúncias da população
O promotor também explicou ao BnT como a investigação foi iniciada. Segundo ele, a Operação Rota 466 teve forte participação de denúncias feitas pela própria população. Pessoas procuraram o Gaeco relatando supostas cobranças de propina em postos rodoviários, entre eles os de Pitanga e Palmeirinha, ao longo da PR-466.
A rodovia acabou dando nome à operação. Papaiz esclareceu ainda que vídeos que circularam mostrando um caminhoneiro sendo cobrado via Pix pertencem à Operação Via Pix, conduzida pelo Gaeco de Ponta Grossa, e não à Rota 466. Apesar disso, as duas investigações possuem três alvos em comum.
Ponta Grossa teve alvo da operação
O promotor confirmou durante a entrevista que Ponta Grossa teve alvo nesta terceira fase da investigação. No entanto, questionado especificamente sobre o que foi apreendido ou quem foi o alvo na cidade, ele afirmou que não tinha naquele momento os detalhes individualizados de cada cumprimento de mandado.
Além de Ponta Grossa, a operação teve desdobramentos em diferentes municípios paranaenses. Conforme divulgado oficialmente pelo Ministério Público, foram cumpridos mandados em Guarapuava, Ponta Grossa, Telêmaco Borba, Pitanga, Bituruna, Castro, Palmeira e Wenceslau Braz.
30 policiais investigados na Rota 466
Somadas as três fases da Operação Rota 466, a investigação já alcançou 30 policiais militares. A maioria dos investigados possui ligação com a Polícia Rodoviária Estadual.
A ação conta com apoio da Corregedoria da Polícia Militar e, segundo o promotor, o Batalhão de Polícia Rodoviária também colabora com as apurações. Além da investigação criminal conduzida pelo Gaeco, procedimentos disciplinares são instaurados dentro da própria corporação para apurar a conduta dos policiais.
Via Pix e Rota 466 somam 50 policiais investigados
A Operação Rota 466 possui três investigados em comum com a Operação Via Pix, conduzida pelo Gaeco de Ponta Grossa. As duas investigações, porém, seguem de forma independente. Considerados os dois procedimentos, 50 policiais militares já foram investigados, sendo que 42 foram afastados das funções por determinação judicial.
Nesta terceira fase da Rota 466, 15 policiais foram afastados das atividades operacionais e ostensivas e poderão exercer apenas funções administrativas. Também foi determinado o recolhimento das armas funcionais e particulares desses agentes. Durante os mandados, uma pessoa foi presa por posse irregular de arma de fogo. Celulares, documentos e equipamentos eletrônicos também foram apreendidos e serão analisados no decorrer da investigação.
























