Tão importantes quanto as medidas preventivas de acidentes são as medidas destinadas à minimização das consequências do acidente. Lamentavelmente, muitos profissionais e empresas ainda não compreendem que as ações pós-acidente devem fazer parte integrante do Programa de Segurança do Trabalho.
Alguns colegas chegam a afirmar que soa estranho que um prevencionista atue nesse extremo. Costumo responder que, se mantivermos atenção à taxa de gravidade, entenderemos claramente o quanto as medidas de minimização são importantes, já que a extensão das lesões ou dos danos está diretamente ligada à quantidade de dias perdidos ou debitados, os quais, como todos sabem, compõem a Taxa de Gravidade.
Ao mesmo tempo, na relação da empresa com as autoridades interdições, descontinuidade das operações e com a comunidade meios de comunicação, clientes, etc., a diferença entre um acidente com lesões leves e outro com morte, incapacidade temporária ou permanente é fundamental. Obviamente, dispensa comentários o aspecto humano envolvido na questão.
Vale também abrir um parêntese quanto às ações de ressarcimento, que a cada dia ganham mais espaço e que, em muitos casos dependendo do porte da empresa, podem consumir recursos essenciais à sobrevivência do negócio.
Em suma, sob todos os aspectos, as medidas de minimização são importantes demais para serem tratadas de forma secundária. Um bom Programa de Segurança deve, sem dúvida, ter como parte essencial um programa de minimização bem estruturado e testado.
UM POUCO DE TEORIA
Aprende-se nas boas e raras escolas de prevenção que as oportunidades de controle estão classificadas em: controle de pré-contato, controle de contato e controle de pós-contato.
Para quem não está familiarizado com esses termos, é importante esclarecer que, nessa linha de raciocínio, acidente é o resultado do contato com uma substância ou energia acima da capacidade limite do corpo humano. De forma simplificada, poderíamos dizer que também para os agentes mecânicos existem algo semelhante aos limites de tolerância. Evitar os contatos ou mantê-los dentro desses limites é a essência da prevenção.
Na fase de pré-contato desenvolvemos toda a ordem de medidas destinadas a evitar os riscos. Sem dúvida, é a fase mais interessante. No entanto, a experiência mostra que isso nem sempre é viável, algumas vezes por limitações técnicas e, em muitos casos, por questões econômicas, especialmente nos países em desenvolvimento.
Na fase do contato em si reside boa parte do nosso trabalho. Parte-se da premissa de que ocorrerá o contato do corpo humano com a substância ou fonte de energia e, portanto, devemos adotar ações para que esses contatos ocorram dentro dos limites suportáveis, seja reduzindo a intensidade da energia, seja aumentando a capacidade de proteção do corpo humano por meio de medidas de proteção.
Segue-se, então, a preocupação com a fase de pós-contato, em que nada mais faremos do que buscar diminuir a extensão das lesões ou perdas. Importante notar que essa fase pode fazer enorme diferença em determinados acidentes.
UM CASO INTERESSANTE
Tudo na vida é evolução. O que não evoluiu desapareceu e perdeu-se no tempo e essa regra continua válida.
Hoje, ao andarmos pelas ruas, percebemos que até mesmo em pequenas obras já é possível ver trabalhadores utilizando equipamentos de segurança. Dentro das empresas, então, nem se fala. Felizmente, a prevenção evoluiu, e o número de mortes por quedas em diferentes níveis certamente diminuiu. Podemos afirmar, assim, que houve um processo de evolução.
No entanto, não podemos parar aí. Evolução é algo contínuo.
Há cerca de dois anos, participei de um treinamento ministrado por um especialista de segurança em trabalhos em altura. Foram apresentados equipamentos e métodos extremamente interessantes. Em determinado momento, ele afirmou que trabalhadores suspensos pelo cinto de segurança após uma queda precisam ser resgatados o mais rápido possível, pois a pressão exercida pelas partes inferiores do cinto compromete a circulação sanguínea dos membros inferiores. Inclusive, citou o tempo máximo recomendado para esse resgate.
Desde então, passei a perguntar às pessoas: “Qual é o planejamento da empresa para resgatar um empregado suspenso pelo cinto em altura? ”
As respostas são variadas. Muitos dizem: “Chamamos o Corpo de Bombeiros”. Porém, muitos desses trabalham em cidades ou localidades sem unidade do Corpo de Bombeiros, dependendo de socorro vindo de cidades vizinhas. Outros respondem: “Subimos lá e retiramos”. Entretanto, ao observarmos a estrutura, percebe-se que ninguém conseguiria fazer isso sem expor outras pessoas a novos riscos.
Percebe-se, então, que o planejamento do trabalho em altura termina na execução da atividade. Se algo der errado, improvisa-se. Isso não é prevenção.
PENSANDO NO DEPOIS
Em postos de trabalho, fixos ou temporários, devemos criar o hábito de nos perguntar: “Se ocorrer aqui um acidente ou um mal súbito, como farei o socorro dessa pessoa? ”
Muitas vezes, a resposta gera situações embaraçosas.
Conheço diversos locais de trabalho com mezaninos onde são realizadas atividades perigosas. Estranhamente, não existe qualquer forma adequada de acesso para remoção de vítimas, nem mesmo com maca portátil. Em muitos casos, os equipamentos entram desmontados, mas, depois de montados, torna-se impossível retirar uma pessoa ferida dali.
Por mais absurdo que pareça, situações semelhantes são encontradas em canais de ar, porões e espaços confinados.
Se não há sequer acesso para equipamentos básicos de socorro, certamente também não existe planejamento de minimização de danos.
Falemos então de algo mais simples e previsto claramente em nossa legislação: os primeiros socorros.
Nos países desenvolvidos, crianças aprendem noções básicas de primeiros socorros. Aqui, raramente encontramos alguém realmente preparado para agir adequadamente.
Certa vez propusemos que os ônibus das empresas possuíssem brigadas de trajeto. Quem atua na área sabe da importância da rapidez e da forma correta na prestação dos primeiros socorros. Além disso, trata-se de um treinamento relativamente simples. Falta, muitas vezes, apenas boa vontade.
Grande parte das tragédias que acompanhamos poderia ser minimizada se as pessoas soubessem como proceder. Dentro das empresas, a realidade não é diferente. Quando ocorre um acidente, além de ninguém saber exatamente o que fazer por falta de planejamento, as pessoas também não sabem como fazer, por falta de treinamento.
E muitas dessas situações ocorrem em locais distantes dos centros de socorro, contribuindo significativamente para o agravamento das lesões e possíveis sequelas.
Pânico e desconhecimento são, infelizmente, o que muitas pessoas encontram nos momentos difíceis. Isso ocorre tanto nas empresas quanto em locais de grande concentração de público.
Quantos de nós, ao frequentarmos um shopping center, já fomos orientados sobre como agir em caso de explosão ou incêndio? Quantas vezes ouvimos falar da realização de exercícios simulados de emergência em grandes centros comerciais ou cidades?
Com exceção das indústrias químicas, são poucos os exemplos de preparo efetivo para acidentes ou grandes incidentes.
Quando visito empresas, costumo perguntar às pessoas: “Como sairíamos daqui se algo acontecesse agora? ” Quase ninguém sabe responder.
Atenção especial deve ser dada a determinadas operações. Em uma auditoria realizada em uma grande empresa, perguntei ao responsável pelo ambulatório médico como seriam retiradas das pessoas do interior da unidade em caso de emergência. Não havia plano definido.
Da mesma forma, trabalhadores expostos a riscos de incêndio devem ser treinados para agir em situações adversas. Conheço casos de operários que, com as vestes em chamas, correram em busca de socorro e acabaram morrendo. Se tivessem recebido orientação adequada para abafar as chamas, em vez de expô-las ainda mais ao oxigênio, talvez tivessem sofrido queimaduras, mas sobrevivido.
É igualmente importante que os trabalhadores das áreas periféricas saibam o que fazer, como fazer e quando agir. Isso também é prevenção.
Era sobre isso que gostaríamos de refletir: em muitos Programas de Segurança ainda falta a etapa da minimização das consequências.
Não devemos desprezar o pós-acidente ou o pós-contato. Pelo contrário: devemos enxergar nessa fase a oportunidade de agir em favor do acidentado e da própria empresa.
Gerenciando adequadamente a realidade e as possibilidades, certamente conseguiremos minimizar as consequências dos acidentes.
Obrigado pela leitura e até o próximo artigo.
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José Aparecido Leal e Rafael Mansani
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