Vergonha, por Renata Regis Florisbelo
Um relato delicado sobre a vergonha — essa visitante incômoda que muda de forma, mas nunca deixa de nos tocar. Leia, sinta e talvez se reconheça.

Tantas vezes senti vergonha. Coisas inconfessáveis aconteceram e, eu soube oculta-las de todos e ninguém percebeu a minha vergonha. Nem sempre é possível disfarçar. A expressão facial pode ajudar, olhar de quem canta o Hino Nacional e um ar de criança que nem se deu conta da besteira que fez.
Sei que muitas vezes fui visitada pela vergonha. Ela é uma figura emblemática que assume várias formas conforme lhe convém. Tal ser já me visitou como uma mulher esnobe, cheia de joias inúteis que não me impressionaram, contudo perturbaram pela tentativa de humilhação.
Certa vez a vergonha veio a mim em vestido branco engomado de menina, laçarotes de fitas e meias de renda. Fiquei mesmo com vergonha, pois nunca usei nada tão alinhado.
O susto veio quando do espelho em minha casa brotou um pedaço de mim com olhos chorosos e queixou-se baixinho:
– Você não era assim. Cresceu e ficou estranha!
Aquela criança que era eu olhava para mim. E o ápice da vergonha é porque ela nunca desistirá de mim…
Autoria: Renata Regis Florisbelo
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