QUARTA-FEIRA · 02 SET 2026Ponta Grossa 10°C ☀️
Publicidade
Entretenimento

Aldir Blanc faria 80 anos; letrista radiografou o Brasil

Aldir Blanc, parceiro de João Bosco e Guinga, faria 80 anos nesta quarta-feira (2). O letrista carioca deixou obra marcada por versos imagéticos que enfiaram a navalha na carne do Brasil.

Aldir Blanc faria 80 anos; letrista radiografou o Brasil
O compositor carioca Aldir Blanc (1946 — 2020), parceiro letrista de João Bosco e Guinga, faria 80 anos hoje, quarta-feira, 2 de setembro — Foto: Divulgação
Publicidade

O compositor carioca Aldir Blanc (1946 – 2020), parceiro letrista de João Bosco e Guinga, faria 80 anos hoje, quarta-feira, 2 de setembro. A rigor, o bardo carioca faria 80 anos, pois saiu de cena há seis anos e quatro meses, aos 73 anos. Mas canta-se tanto a música de Aldir Blanc que, sim, o verbo pode ser conjugado no presente.

Arquiteto de letras engenhosas, imagéticas e por vezes surrealistas que pareciam delírios cariocas, ou coisas de cinema, prontas para serem filmadas para gerar um clipe ou um curta-metragem, Aldir Blanc foi compositor de sintaxe própria e inimitável na escrita da MPB.

Navalha na carne do Brasil

Como letrista afiado, o poeta enfiou a navalha na carne do Brasil com versos que fizeram a crônica de um país tão violento quanto sensual. Foi como se a obra de Aldir Blanc tivesse sido um samba anti-exaltação do Brasil, a exemplo da obra-prima “Nação” (1982), parceria com Bosco e Paulo Emilio apresentada ao país do Carnaval na voz iluminada da cantora Clara Nunes (1942 – 1983).

Com a sina verde e amarela, o poeta escarrou o sangue das vítimas de um Brasil que vive em (não declarado) estado de guerra civil em letras que normalmente seguiram a cadência do samba, entre eventuais incursões pelo bolero, ritmo de “Dois pra lá, dois pra cá” (1974), e por outros gêneros musicais.

No cancioneiro de Aldir, o sangue esguichou tanto do corpo estendido no chão em “De frente pro crime” (1974) – samba que expôs a violência cotidiana da cidade do Rio de Janeiro (RJ) – como do coração pisoteado por ingratidões e desilusões amorosas.

Do parto difícil ao suingue da letra

Se Aldir veio ao mundo a fórceps, tirado com aflição da barriga da mãe em parto alongado que deixaria sequelas na mãe e (talvez de forma inconsciente) no filho, a entrada no universo da música se deu com naturalidade. Promissor baterista que chegou a integrar o grupo GB-4, Aldir acabou se tornando um letrista cheio de ritmo que caiu no suingue das melodias para as quais escreveu versos.

A primeira parceria, com Sílvio da Silva Júnior, foi aberta em 1964 e, seis anos depois, gerou o primeiro sucesso do cancioneiro de Aldir, “Amigo é pra essas coisas” (1970), samba de melancólica letra escrita em 1968 em forma de diálogo, difundido nas vozes do grupo MPB4.

Crônica da cidade partida

Da trincheira carioca, por exemplo, Aldir disparou “Tiro de misericórdia”, em 1977 com artilharia que acertou premonitoriamente na violência que dominaria as comunidades da cidade partida retratada com lirismo, mas longe dos cartões-postais. Dois anos depois, em 1979, a dupla compôs o hino da abertura, “O bêbado e a equilibrista”, lançado na voz recorrente de Elis.

Já nas cotidianas batalhas conjugais, assuntos de sambas como “Incompatibilidade de gênios” (1976) e “A nível de…” (1982), o cronista poeta ficou do lado da espirituosidade com que retratou sem piedade a alma humana.

Parcerias que marcaram época

Médico que abandonou o ofício após a morte das filhas gêmeas em janeiro de 1974, tragédia que traumatizou Aldir Blanc e potencializou as estranhezas do temperamento arredio de um artista desde então cada vez mais recluso, o letrista nunca parou no tempo.

Na sequência da dissolução do elo musical com João Bosco, desfeito sintomaticamente no meio dos anos 1980 quando a ditadura começou a agonizar, Aldir firmou parceria expressiva com o vizinho Moacyr Luz – carioca orgulhosamente suburbano e tijucano como o letrista – a partir da segunda metade dos anos 1980.

Depois, com Guinga, o letrista construiu uma das obras mais sofisticadas da música brasileira da década de 1990, gerando cancioneiro que encantou os maiores intérpretes da MPB, sobretudo a cantora Leila Pinheiro, que dedicou há 30 anos um álbum ao repertório da dupla, “Catavento e girassol” (1996).

Legado vivo e presente

Um ano antes de sair de cena, Aldir Blanc afiou a pena ao letrar “Valhacouto” (2019) na abertura da parceria com o sambista paulistano Douglas Germano.

Salgueirense boêmio, o letrista radiografou o Rio e o Brasil com poesia crua que conciliou lirismo e aguda consciência social. Em qualquer trincheira e com qualquer parceiro, o letrista bamba sempre situou a escrita fina no lado certo da história. É por isso que, em bela resposta ao tempo, a obra do bardo já octogenário vive firme e forte. Aldir Blanc presente!

Fonte

Tags
Quer ver a BnT mais vezes no Google?
Redação BnT
Autoria
Redação BnT
Equipe de jornalismo do BnT Online, cobrindo Ponta Grossa e os Campos Gerais.
Ver todas as matérias →
Publicidade

Comentários

Nenhum comentário ainda

Deixe seu comentário

1500 caracteres restantes

Ao comentar você concorda com a publicação do seu nome e do seu comentário nesta página. Seu e-mail não é exibido e é usado apenas para moderação. Comentários ofensivos podem ser removidos pela redação — veja a política de privacidade.

Carregando comentários…

Publicidade
Notícias relacionadas
Web Stories
Todas →
VídeosMais vídeos para você curtir
Ver no YouTube →
Faz parte da rede