Carnes repartidas, por Renata Régis Florisbelo
Carnes repartidas inspiram uma reflexão sobre afeto, trabalho e o vínculo diário entre um homem e duas cachorras em Ponta Grossa.

As carnes repartidas durante o almoço transformavam uma cena comum do ambiente de trabalho em Ponta Grossa em uma demonstração diária de afeto. Entre pratos, bandejas, talheres e a pressa habitual da refeição, um homem sempre reservava parte de sua comida para duas cachorras que o aguardavam do lado de fora do restaurante.
Trabalho também é lugar de se alegrar.
Nas bandejas do almoço de todos os dias, eram acomodados pratos, talheres e um copo plástico reservado para uma missão especial. O recipiente recebia uma generosa porção da refeição, cuidadosamente guardada para servir de agrado às duas vira-latas.
Do lado de fora do restaurante, elas esperavam eufóricas. Atentas ao movimento, pareciam reconhecer o horário, os passos e a aproximação daquele que jamais esquecia o agrado diário.
As carnes repartidas não eram simples sobras. Eram pedaços da própria refeição retirados de maneira consciente para completar a porção de ração das cachorras.
Alguns comentavam. Outros ignoravam. No entanto, absolutamente todos reparavam no homem que diminuía o próprio almoço para aumentar, ainda que por alguns instantes, a alegria daqueles animais.
Mais do que alimentação
As cachorras recebiam alimentação suficiente. Tinham ração e não dependiam daquela carne para sobreviver. Então, qual era a verdadeira função nutricional do alimento repartido?
A resposta não era tão simples.
As carnes repartidas alimentavam algo que não podia ser medido apenas em proteínas, calorias ou quantidade. Alimentavam a expectativa, o vínculo e a confiança construída diariamente entre o homem e os animais.
Para elas, aquele momento representava atenção. Para ele, talvez significasse uma pausa de alegria em meio à rotina de trabalho.
O gesto era pequeno, mas carregava um significado profundo. Não havia discursos, registros ou busca por reconhecimento. Havia apenas um homem, duas cachorras e uma porção de carne colocada dentro de um copo plástico.
A retribuição dos animais
O animal não pede explicações sobre o gesto recebido. Também não calcula o preço, o tamanho ou o valor daquilo que lhe é oferecido.
Sua retribuição aparece de outra forma.
Ela surge na alegria incontida, na aproximação, no reconhecimento e no acompanhamento incondicional. As cachorras sabiam quem era o homem que reservava parte do almoço para elas. Sabiam o momento de esperar e a quem acompanhar.
As carnes repartidas acabavam se transformando em um tipo silencioso de diálogo. De um lado, alguém oferecia alimento e cuidado. Do outro, os animais respondiam com entusiasmo, confiança e fidelidade.
O que parecia apenas uma porção de comida era, na verdade, a renovação diária de uma relação.
Uma lição servida no almoço
Observo e assisto.
Estou bem aquém de demonstrar igual expressão devocional.
As cachorras não agradeciam com palavras, mas retribuíam com uma presença absoluta. Não exigiam justificativas e não questionavam as intenções. Apenas reconheciam o carinho recebido e devolviam aquilo que possuíam de mais verdadeiro.
Talvez as carnes repartidas alimentassem menos o corpo dos animais do que o vínculo entre eles e aquele homem.
No fim, a cena deixava uma lição simples: o afeto não depende de grandes atitudes. Às vezes, ele cabe em um copo plástico, em uma pequena parte do almoço ou na decisão de repartir aquilo que temos.
A carne era dividida. A alegria, no entanto, parecia se multiplicar.
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