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Dia da Consciência Negra: UEPG traz vivências de alunas e servidoras

Fotos: Jéssica Natal / Fabio Ansolin / Acervo pessoal Damaris e Ana
Para marcar a data, a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis promove o debate “O óbvio precisa ser dito”, que acontecerá hoje (20) no Campus Uvaranas, às 14h.

O despertador tocou hoje pela manhã com o aviso: “faltam 53 dias para o CRM”. Assim Ana Flávia Lino acorda todos os dias, na contagem regressiva para a materialização do sonho de se tornar médica. Aluna da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), ela é uma daquelas que quer ser inspiração para as próximas gerações. No Dia da Consciência Negra (20), a instituição traz a história de alunas e servidoras para mostrar todos os dias que seus passos vêm de muito longe.

Desde pequena, Ana sonha em ser médica. Quando chegou no último ano do Ensino Médio, veio o questionamento: por onde começar? “Foi uma luta árdua, mas não lutei sozinha, eu tinha a minha família, que me deu muito apoio”. Até conseguir a sonhada aprovação, foram quatro anos de tentativas. “Às vezes eu pensava que não iria conseguir, mas sempre tinha a certeza de que iria vencer”.

Ana é filha do ensino público brasileiro. Vinda de Maringá, a primeira vez que chegou perto da vaga foi quando veio fazer a matrícula na UEPG. Era 2018 e a época ainda pedia matrículas presenciais. “Fiquei na lista de espera e vim com aquela pastinha com todos os documentos”. Ana pesquisou todos que tinham ficado à sua frente na lista. “Um minuto antes de fecharem, a pessoa que ficou na minha frente veio e fez a matrícula. Vi a minha vaga escorrendo pelas minhas mãos”.

O trajeto de Ponta Grossa até Maringá foi repleto de choro. “Mas olhei pra trás e vi o quanto tinha evoluído, de alguém que foi mal na primeira prova, pra quem estava bem próxima de conseguir passar”. A felicidade veio logo no outro Vestibular. “Meu pai me trouxe para a matrícula, mas preferiu ficar do lado de fora, apreensivo”, recorda.

Quando saiu da sala e viu o pai, aquele grito de felicidade foi incontrolável. “A gente pulava e se abraçava demais. Eu falava ‘meu Deus, não acredito que consegui’”, se emociona. Depois de quase seis anos na UEPG, Ana faz questão de ressaltar que não conquistou sozinha. Tanto que nas fotos antes da formatura estão lá a mãe, o pai, a avó, os irmãos e até o cachorro de estimação. “Minha mãe e minha avó foram minha base. Minha avó é a minha grande inspiração de força e determinação. Elas têm uma história incrível e eu sempre me inspirei muito nelas para concretizar o meu sonho”. Ter uma foto com a família tem um significado muito forte para ela. Ainda na época do cursinho preparatório, apesar das dificuldades financeiras, o apoio da família sempre foi incondicional. “Minha avó tirou dinheiro da aposentadoria para pagar uma prova de questões específicas, porque ela sempre acreditou em mim. E eu fiz tudo valer a pena, não tinha como elas não estarem do meu lado nessas fotos”.

Com a determinação que herdou dos seus, Ana agora quer fazer especialização em Ginecologia e Obstetrícia. “Eu lembro que quando era criança eu falava que queria ser médica e as pessoas me diziam que isso não era pra mim. Mas a gente cresce e percebe a importância da representatividade”. Ser aluna de uma universidade pública e futura médica mostram a importância de que pessoas negras ocupem cada vez mais espaços. “Eu espero que as pessoas olhem pra mim e pensem que também conseguem chegar onde eu cheguei”, completa.

 

Mulheres negras na Química

Elaine Regina Lopes Tiburtius é bacharel e licenciada em Química pela Universidade Federal do Paraná; mestre e doutora em Química Analítica; entrou na UEPG em agosto de 2010, no Departamento de Química; e leciona Química Analítica para os cursos de graduação e pós-graduação. No mesmo ano, abriu uma pesquisa continuada intitulada “Estudo da potencialidade dos processos oxidativos avançados na remediação de poluentes de relevância ambiental em resíduos e matrizes contaminadas”.

Para ela, lecionar na UEPG tem sido gratificante, principalmente “quando vejo os egressos ocupando posições importantes no mercado de trabalho e trabalhos de pesquisas desenvolvidos aqui na UEPG sendo apresentados em congressos nacionais e internacionais”. Ao falar sobre o Dia da Consciência Negra, Elaine afirma que é importante destacar que nos últimos anos o número de pessoas negras na universidade vem aumentando, situação que ela não via há 10 anos.

A química é líder do Grupo de Desenvolvimento de Materiais Inorgânicos para o Tratamento de Resíduos (GDMIT) da UEPG. Ela ainda estuda desenvolvimento de Tecnologias Avançadas de Oxidação há mais de 10 anos, tendo vários trabalhos publicados sobre esse tema. Elaine também participa como co-tutora e tutora do Programa Estudantil Tutorial da Química, que tem como objetivo formar profissionais de excelência, além de participar em projetos de extensão.

Entretanto, a docente lamenta que a grande maioria dos estudantes negros estão nos cursos noturnos porque muitos precisam trabalhar durante o dia. “Aqui no Brasil, a questão da condição social muitas vezes está ligada com a raça, uma dívida que sociedade carrega por muitos anos. Muitas vezes, isso dificulta a permanência nos cursos de graduação e pós-graduação”. Ela acredita que, independentemente da origem, as pessoas têm total capacidade de construírem um futuro melhor. “E só o estudo é o caminho para melhorar a condição de vida das pessoas”. O desejo da química para o futuro? Mais ações para promover a permanência dos estudantes nos cursos. “A divulgação de que negros podem fazer trabalhos intelectuais promove o incentivo de cursar uma graduação e pós graduação”, finaliza.

Carolina Gomes

Professora colaboradora na UEPG, Carolina Gomes leciona disciplinas de Química Geral e Química Analítica para Engenharia de Materiais, Agronomia, Farmácia, Engenharia de Alimentos e Engenharia Civil. Ao falar sobre o Dia da Consciência Negra, Carolina relata que ainda há necessidade de avançar para que futuros alunos pretos se sintam pertencentes. “Eu permeio por diferentes cursos, fazendo com que eu tenha contato com perfis muito diferentes de alunos. Ainda são precisas muitas ações para quem está fora da universidade e ainda não a acessou”, afirma.

Carolina também compartilha que, em parceria com outros professores, busca alinhamento das questões étnico-raciais dentro dos cursos de exatas. “Penso que toda ação e toda troca de vivências vai nos ajudar a enxergar a instituição que temos e, a partir desse ponto, nos auxiliar na construção da universidade pública que queremos”, completa.

Uma questão de representatividade

Damaris de Oliveira é estudante da UEPG desde 2017, ano em que iniciou os estudos no curso de Direito. Atualmente, ela é mestranda pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais Aplicadas. Na graduação, ela vivenciou experiências com pesquisa e extensão universitária, como por exemplo o Núcleo de Estudos e Defesa dos Direitos da Infância e Juventude (Neddij) e o Núcleo de Relações Étnico-Raciais, de Gênero e Sexualidade (Nuregs).

“Tudo isso contribuiu para que eu ingressasse no mestrado, dando continuidade às pesquisas que já realizava”, afirma Damaris, ao relatar que a UEPG faz parte de um projeto transformador de vida e da realização de muitos sonhos. Mas a trajetória dela também foi marcada pelo envolvimento com as ações afirmativas. “A presença de negros em instituições públicas deve refletir a composição populacional do país. Somos a maioria da população, mas não estamos em maioria nesses espaços”, relata. Para Damaris, as ações afirmativas e especialmente as cotas raciais quebraram alguns entraves de acesso de negros em cargos públicos e no ensino superior público, mas o desafio permanece.

Após concluir o mestrado, Damaris pensa em se dedicar à advocacia e à docência. “Ao longo da minha formação, desde a educação básica até a pós-graduação, tive poucos professores negros”, relata a pós-graduanda. Ela também compartilha que dentro da profissão o mesmo acontece quando olha para os quadros de membros, servidores e estagiários dos órgãos públicos de acesso à justiça. “Quando falamos de mulheres negras, há uma ausência ainda mais evidente. Atualmente, se discute a nomeação de uma mulher negra como ministra do Supremo Tribunal Federal, uma corte antiga no país que nunca teve uma juíza negra”, compartilha.

Durante a permanência no curso de graduação, Damaris relata que observou a presença de negros se tornando bacharéis. “A presença negra ainda está em processo de ampliação nesses espaços, graças às políticas de ações afirmativas. Na UEPG temos professoras, professores, e outros servidores negros que abriram e abrem caminhos para nós”, afirma, ao compartilhar a relevância da representatividade. “É muito importante, porque para alunos negros significa que não estaremos sozinhos aqui, cria o vínculo de pertencer a esse lugar porque alguém como nós chegou e se estabeleceu, porque a universidade também é feita para nós e por nós e nos permite ter a visão de que é possível chegar lá”, finaliza.

História

Luciana Cristina Pinto é bacharel em História e, desde 2011, funcionária na UEPG. Começou na Biblioteca no Campus de Castro (PR), Museu Campos Gerais (MCG), Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Culturais (Proex) e, desde 2017, trabalha no Centro de Documentação e Pesquisa em História (CDPH), com atividades de atendimento aos pesquisadores, alunos, docentes, público no geral, preservação dos documentos e treinamento dos estagiários.

A historiadora desenvolve pesquisa de doutorado em História na (UFSC), com os documentos do Arquivo Pessoal do historiador paranaense Brasil Pinheiro Machado (1907-1997). Mesmo estudando em outros lugares, a UEPG sempre esteve presente no cotidiano da servidora. Ao falar sobre o Dia da Consciência Negra, Luciana afirma que a presença de pessoas pretas nas instituições ainda é bastante tímida, em que os fatores sociais, econômicos e culturais contribuem para um considerável abismo. “As políticas de cotas são fundamentais para diminuir, em parte, essa diferença, mas o fato é que as instituições são lugares de maioria branca”, afirma.

Ao compartilhar sua história, Luciana reforça que a história na UEPG faz parte de sua trajetória pessoal, e deseja que o espaço seja conquistado diariamente. “A presença de pessoas negras nas instituições públicas em diferentes áreas do conhecimento, inseridas nos debates acadêmicos e desenvolvendo pesquisas em níveis de graduação e pós-graduação, é uma forma de resistir e tentar amenizar parte dessa desigualdade construída historicamente”, completa.

Política de assistência estudantil

Para marcar a data, a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (Prae) promove o debate “O óbvio precisa ser dito”, que acontecerá na sala 10 do Centro Integrar, Campus Uvaranas, às 14h. A iniciativa partiu de estudantes, com o apoio da Diretoria de Ações Afirmativas e Diversidade (DAAD), para uma conversa sobre pertencimento. “O objetivo é a produção de um e-book para identificar possíveis condutas racistas que não podem mais ser naturalizadas”, relata Marcela Teixeira Godoy, diretora do DAAD.

A Prae fundamenta suas atividades na integração e qualidade de vida da comunidade de alunos, com planejamentos de projetos, programas e execução que zelam pela equidade de direitos da comunidade estudantil universitária. As atividades realizadas buscam aprimorar a política assistencial aos acadêmicos de forma a integrar e suprir as necessidades constatadas.

A Pró-reitora da Prae, Ione Jovino, compartilha que o dia da Consciência Negra é mais um dos dias em que mais se trabalha na luta contra o racismo e em prol da igualdade. “Este ano estamos especialmente felizes, porque a atividade foi programada pelos alunos e alunas, contanto com o apoio da Prae. Isso é de extrema relevância porque o protagonismo estudantil é um dos eixos de nossa atuação”, finaliza. Mais informações estão no link aqui.

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