Jovens chineses redescobrem Mao Tsé Tung 50 anos após sua morte
Cinquenta anos após a morte de Mao Tsé Tung, jovens chineses demonstram fascínio pelo líder, chamando-o de ‘Professor’ e impulsionando sua imagem na internet. O fenômeno contrasta com a visão oficial do Partido Comunista Chinês, que reconhece erros em seu legado.

Meio século após a morte de Mao Tsé Tung, em 9 de setembro de 1976, o líder chinês voltou a ganhar destaque entre os jovens do país. Nas redes sociais, muitos se referem a ele como “Mestre” ou “Professor”, e vídeos com sua imagem viralizam em plataformas como a Bilibili, cuja base de usuários é predominantemente jovem — quase 60% têm entre 18 e 24 anos.
Uma busca por “Mao Tsé Tung” ou “Professor” na Bilibili retorna dezenas de compilações de vídeos com aparições de Mao extraídas de filmes e séries de TV. Uma imagem de Mao na tela de um celular, sobreposta a uma foto de várias pessoas caminhando, com tons de azul e vermelho e indícios da bandeira chinesa, circula entre os internautas.
Fascínio juvenil pelo ‘Professor’
Dong, um estudante de Nanjing prestes a começar a universidade, é um dos jovens atraídos pela figura de Mao. Recentemente, ele se comoveu com um vídeo de duas jovens cantando uma canção patriótica em frente a uma estátua gigante do jovem Mao na Ilha Laranja, em Changsha. “Elas cantaram com tanta emoção, e a estátua é tão alta e jovial. Ao vê-la, de repente me senti bastante emocionado”, disse Dong à BBC.
A estátua do jovem Mao Tsé-Tung na Ilha Laranja, em Changsha, província de Hunan, tornou-se uma atração turística popular. Muitos colegas de Dong participam de comunidades online de jovens que discutem assuntos da atualidade, conhecidas como “círculo político de teclado”.
Interesse renovado por obras de Mao
Outro indicador dessa tendência é o aumento do empréstimo do livro “Obras Selecionadas de Mao Tsé Tung”. A partir de 2019, a obra tornou-se inesperadamente a mais emprestada da Biblioteca da Universidade de Tsinghua, mantendo essa posição em todos os anos até 2025.
É importante destacar que o interesse dos jovens por Mao hoje difere da narrativa pública com a qual seus pais cresceram. Em 1981, o Partido Comunista Chinês adotou uma resolução elaborada sob a liderança de Deng Xiaoping, que estabeleceu uma avaliação de Mao equilibrando conquistas e erros, frequentemente resumida como “70% conquistas, 30% erros”.
De figura divina a figura histórica
Durante os governos de Deng Xiaoping e, posteriormente, de Jiang Zemin, os retratos de Mao desapareceram gradualmente das estações ferroviárias, praças públicas e salas de aula. As pessoas passaram a ver Mao cada vez mais como uma figura histórica, e não como uma divindade, um homem com limitações. Deng, por sua vez, tornou-se um símbolo de uma nova era econômica — um programa de reformas para construir uma economia de mercado interna e abri-la para o mundo.
Hoje, porém, Mao recuperou a relevância para os jovens chineses, e muitos, incluindo Dong, raramente se referem a Mao pelo nome, chamando-o de “Professor”. Acredita-se que o americano Edgar Snow tenha sido o primeiro jornalista ocidental a entrevistar Mao.
Discussões abertas, mas com limites
Dong e seus colegas discutem Mao abertamente e sem rodeios. Mas quando o assunto é o atual líder chinês, Xi Jinping, Dong sente que “não é algo que possa ser discutido abertamente”. Um estudo do Instituto Mercator para Estudos da China (MERICS) descobriu que, embora o espaço online da China ainda permita um certo grau de discussão pública, tópicos que realmente afetam os mais altos níveis de liderança são frequentemente evitados conscientemente.
O fenômeno revela uma juventude que busca referências históricas em um contexto de rápidas transformações sociais e econômicas. A redescoberta de Mao, ainda que sob uma ótica seletiva, reflete anseios e questionamentos de uma geração conectada.
Fonte
Comentários
Nenhum comentário aindaCarregando comentários…























