Ponta Grossa recebeu Getúlio Vargas há 76 anos durante campanha que marcou retorno à Presidência
Em 18 de setembro de 1950, candidato à Presidência voltou aos Campos Gerais durante campanha eleitoral; segundo historiador da UEPG, passagem foi o terceiro momento de uma relação política construída desde o golpe de 1930

Há 76 anos, Ponta Grossa recebia uma das figuras mais importantes e controversas da história política brasileira. Em 18 de setembro de 1950, Getúlio Vargas esteve na cidade durante a campanha para voltar à Presidência da República. A visita, registrada em fotografias históricas, reuniu uma multidão e marcou a última passagem de Vargas por Ponta Grossa.
Mas a relação entre o político gaúcho e a cidade havia começado muito antes. Segundo o professor Paulo Eduardo Dias de Mello, do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Vargas esteve em Ponta Grossa em três momentos distintos de sua trajetória política — e cada visita representa uma fase completamente diferente de sua relação com o poder.
“Ele esteve na cidade em três momentos, que revelam três facetas políticas de Getúlio”, afirma. A primeira passagem ocorreu em 1930, durante os acontecimentos que culminaram na Revolução de 1930. A segunda aconteceu em 1944, quando Vargas era presidente e comandava o país durante o Estado Novo. A terceira, em 1950, ocorreu quando ele já havia deixado o poder e retornava à disputa política como candidato à Presidência.
De líder revolucionário a candidato à Presidência
A primeira passagem de Vargas por Ponta Grossa aconteceu em um dos momentos mais decisivos da história republicana brasileira. Em outubro de 1930, Vargas seguia de trem em direção ao Rio de Janeiro, acompanhado por tropas e lideranças do movimento que derrubaria o governo de Washington Luís. Ponta Grossa, por sua localização estratégica e pela importância de sua estrutura ferroviária, tornou-se um ponto importante para as operações.
O Dicionário Histórico dos Campos Gerais, mantido pela UEPG, registra que Vargas utilizou a estrutura militar de Ponta Grossa como quartel-general e centro de operações, justamente pela posição estratégica da cidade e pela ligação ferroviária com outras regiões. Foi também nesse contexto que, segundo o professor Paulo Eduardo, Vargas recebeu em Ponta Grossa a notícia da prisão de Washington Luís e deu ordens relacionadas à continuidade do movimento.
“Foi em PG que ele determinou ordens decisivas e soube da prisão de Washington Luís, que o levaram ao poder”, destacou. A Revolução de 1930 resultaria na derrubada do presidente Washington Luís e na chegada de Vargas ao comando do Governo Provisório.
Em 1944, Vargas voltou como chefe do Estado Novo
A segunda visita ocorreu em 1944, quando a situação era completamente diferente. Getúlio Vargas já estava no poder e governava o Brasil durante o Estado Novo, regime autoritário implantado em 1937. O período duraria até 1945. Registros históricos apontam que Vargas esteve novamente em Ponta Grossa em janeiro de 1944.
Na ocasião, participou de atividades oficiais e recebeu homenagens das autoridades e da população. O 13º Regimento de Infantaria realizou um desfile em sua homenagem na Avenida General Carlos Cavalcanti. Foi, portanto, uma visita completamente diferente daquela de 1930. Se na primeira passagem Vargas era um líder revolucionário que avançava em direção ao poder, em 1944 ele retornava à cidade como chefe do governo brasileiro.
Seis anos depois, Vargas voltou às urnas
A terceira passagem ocorreu em 18 de setembro de 1950. Dessa vez, Vargas não era presidente. Ele era senador pelo Rio Grande do Sul e candidato à Presidência da República. Na cidade, estava acompanhado de Bento Munhoz da Rocha Netto, que disputava o Governo do Paraná. Os dois venceriam as eleições daquele ano.
A visita ocorreu poucos dias antes da eleição presidencial. Vargas participou de um comício na Concha Acústica Carlos Gomes, na região da Praça Barão do Rio Branco. Fotografias preservadas em acervos históricos mostram o político diante do microfone, enquanto milhares de pessoas aguardavam sua chegada nas proximidades da praça.
Para Paulo Eduardo Dias de Mello, o retorno tinha um significado político e simbólico. “Seu gesto visava capitalizar simbolicamente este vínculo histórico com Ponta Grossa. O retorno ao município em 1950 reforçava a ligação simbólica, essa memória da história republicana”, afirmou. A visita também estava relacionada à disputa política no Paraná.
Naquele momento, Bento Munhoz da Rocha Netto disputava o governo estadual por uma ampla coligação que reunia PR, PTB e setores do PSD. Segundo o historiador, havia uma aliança informal entre Vargas e Bento Munhoz, que dividiram palanques durante a campanha pelo Paraná, inclusive nos Campos Gerais.
Por que Ponta Grossa era tão importante?
A escolha da cidade para receber um candidato à Presidência não aconteceu por acaso. Em 1950, Ponta Grossa já era um dos principais centros econômicos e ferroviários do Paraná. A cidade era um importante entroncamento rodoferroviário e concentrava operações e oficinas da Rede de Viação Paraná-Santa Catarina (RVPSC).
A estrutura ferroviária conectava a região a São Paulo, ao Norte Pioneiro do Paraná, ao Porto de Paranaguá e ao Sul do país. Essa posição fazia de Ponta Grossa um importante eixo de circulação de pessoas e mercadorias. “Ponta Grossa era uma cidade relevante no cenário estadual e nacional. A cidade era (e continua a ser) um importante entroncamento rodo/ferroviário.”, explica o professor.
Além da importância econômica, havia também um componente político e social. A cidade era um importante polo de mobilização operária e sindical, especialmente entre os ferroviários. Os comícios realizados em Ponta Grossa também atraíam moradores de municípios vizinhos, como Castro, Palmeira e Tibagi. “Enfim, era um ponto de atração importante para as decisões políticas”, disse.
A multidão que ficou registrada nas fotografias
As imagens daquele 18 de setembro de 1950 ajudam a dimensionar a importância da visita. Uma das fotografias preservadas pelo acervo do Ponta Grossa Histórica, a partir de registro pertencente originalmente ao acervo de Elysio Alves de Oliveira, mostra Vargas durante o discurso na Concha Acústica Carlos Gomes. Outra imagem registra a multidão que aguardava sua chegada na Praça Barão do Rio Branco.
De acordo com o professor Paulo Eduardo, estavam presentes operários, comerciantes e famílias. “A expressão da população nas fotos registradas revela o tamanho e significado impacto da presença de uma grande liderança política”, afirmou. O episódio também entrou para a memória política da cidade porque aquela seria a última visita de Getúlio Vargas a Ponta Grossa.
Vargas venceu a eleição e voltou ao poder
Pouco mais de duas semanas depois da passagem por Ponta Grossa, Vargas venceu a eleição presidencial de 1950. Aquele pleito marcou seu retorno ao poder depois de cinco anos fora da Presidência. Vargas assumiu novamente o governo em 31 de janeiro de 1951, dessa vez em um período constitucional, depois do fim do Estado Novo.
Seu segundo governo ficou marcado pelo projeto nacional-desenvolvimentista e por uma forte participação do Estado na economia. Foi nesse período que ocorreram iniciativas como a criação da Petrobras, em 1953, a criação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), atual BNDES, e a proposta de criação da Eletrobras.
Quase quatro anos depois, Vargas morreria
A visita de 18 de setembro de 1950 ganhou ainda outro significado com o passar do tempo. Naquele dia, Vargas estava iniciando uma campanha que o levaria novamente à Presidência. Menos de quatro anos depois, em 24 de agosto de 1954, ele morreria no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro.
Por isso, a passagem de 1950 acabou sendo não apenas a última visita de Vargas a Ponta Grossa, mas também um dos últimos grandes registros de sua trajetória política antes da crise que culminaria em sua morte.
Uma história de três Getúlios em Ponta Grossa
A história de Vargas em Ponta Grossa, portanto, pode ser dividida em três momentos.
- Em 1930, a cidade recebeu o líder revolucionário que avançava em direção ao Rio de Janeiro e ao poder.
- Em 1944, recebeu o presidente que comandava o Brasil durante o Estado Novo.
- E em 1950, recebeu novamente o político que buscava voltar à Presidência por meio das urnas.
Para o professor Paulo Eduardo Dias de Mello, essa sequência ajuda a explicar por que a passagem de Vargas permanece tão importante para a memória histórica de Ponta Grossa.
A cidade não foi apenas um ponto no roteiro de viagens de um dos políticos mais importantes do século XX. Ponta Grossa esteve presente em diferentes momentos da trajetória de Getúlio Vargas — inclusive em momentos decisivos para a história política brasileira.
























