Roto, por Renata Regis Florisbelo
Todo dia olho para tuas roupas rotas como se elas não falassem da vida que passa,que por ti passa, que de nós leva tanto embora, às vezes sedimenta o pranto. Tuascamisetas estão cada dia mais surradas, algumas carcomidas eu já escondi, nãoquero que elas se revoltem e venham corroer de preocupações quem as usa. Ascalças […]

Todo dia olho para tuas roupas rotas como se elas não falassem da vida que passa,
que por ti passa, que de nós leva tanto embora, às vezes sedimenta o pranto. Tuas
camisetas estão cada dia mais surradas, algumas carcomidas eu já escondi, não
quero que elas se revoltem e venham corroer de preocupações quem as usa. As
calças também são rotas, tanto quanto minha preocupação em me sustentar de pé.
Às vezes, a tormenta das coisas nos fustiga em açoites do que deveria acontecer, deveria
ter acontecido, deveria ter sido provido, mas que no gesto não rendeu. Nem sempre a
vida rende, feito um sabão em barra que desliza pela roupa e satura na espuma. Meus
destemperos saturam em temer que as rudezas nos castiguem por demais e roubem a
doçura do mel que deveria ser saboreado.
Às vezes, olho para tuas roupas que continuam rotas, meias, camisas, blusões. Os
blusões são os mais maltratados e com o tempo soltam e esgaçam suas fibras, e elas
não têm mais garra para lutar. Temo olhar para tuas roupas daqui a vinte anos e
encontrá-las irremediavelmente rotas. Elas? Não. Minha inquietação faz tudo ficar roto.
Você, no fundo, é quem me salva e me desamassa a interrogação.
Autoria: Renata Regis Florisbelo























