STF abre balcão de negócios com futuros congressistas
A sucessão no Senado e decisões recentes do Supremo Tribunal Federal reacendem o debate sobre a politização da Corte. Ministros negam acordos, mas gestos em casos sensíveis alimentam suspeitas de um balcão de negócios com futuros congressistas.

A eleição do próximo presidente do Senado, prevista para fevereiro, passou a ser acompanhada com especial preocupação no Supremo Tribunal Federal (STF). O motivo é simples: o novo ocupante do cargo será decisivo para a tramitação de pedidos de impeachment contra ministros da Corte. Por enquanto, Rogério Marinho (PL-RN), um crítico da ala golpista do STF, é o favorito para o cargo.
A movimentação nos bastidores de Brasília indica que ministros do STF têm procurado interlocutores no Congresso para discutir uma espécie de pacto de não agressão. A ideia seria trocar a moderação nos julgamentos de casos envolvendo parlamentares por uma blindagem contra pedidos de impeachment e outras retaliações.
Acenos ao Congresso geram desconfiança
Nas últimas semanas, decisões pontuais da Corte chamaram atenção de observadores políticos. Uma delas foi a progressão de Débora do Batom, condenada pelos atos de 8 de janeiro, para o regime semiaberto, autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes. Divulgada na terça-feira (6), a decisão havia sido assinada na sexta (2), antes do primeiro turno, e seguia parecer anterior da Procuradoria-Geral da República (PGR).
Gilmar Mendes, por sua vez, determinou na terça-feira (6) o arquivamento de um pedido de investigação contra Alfredo Gaspar, candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro, após a PGR considerar insuficientes os elementos apresentados para justificar a abertura do inquérito. Os dois gestos foram interpretados como acenos ao campo bolsonarista, que historicamente pressiona o STF.
O senador saiu do encontro com Fachin afirmando que “não haverá vingança dos bolsonaristas contra os ministros, mas também não haverá omissão”. A intenção, segundo ele, é normalizar a relação entre os Poderes. A declaração, no entanto, não dissipou as suspeitas de que o tribunal esteja adotando uma postura mais maleável para evitar confrontos futuros.
Histórico de decisões polêmicas
O temor de politização do STF não é novo. Em maio de 2020, Moraes autorizou mandados de busca e apreensão em seis unidades da federação contra jornalistas, empresários e apoiadores de Jair Bolsonaro, entre eles Allan dos Santos e Luciano Hang. A medida foi criticada por setores da sociedade civil e da imprensa, que viram nela um excesso de poder.
Às vésperas do segundo turno das eleições de 2022, o tribunal fez censura prévia contra um documentário sobre Bolsonaro produzido pela Brasil Paralelo. Na mesma época, aprovou uma resolução que ampliou os mecanismos de retirada de conteúdos da internet, prevendo multas de até R$ 150 mil por hora e suspensão de perfis. As restrições continuaram nos anos seguintes.
Em 2023, Moraes determinou a remoção de anúncios e conteúdos de empresas contrárias ao PL das Fake News e obrigou o Telegram a apagar uma mensagem enviada a seus usuários sobre o projeto. Para críticos, essas decisões demonstram um padrão de intervenção em temas legislativos e na liberdade de expressão.
Relação entre Poderes em xeque
Por enquanto, publicamente, a cúpula do PL rejeita a ideia de acordo e mantém a intenção de promover ao menos o impeachment de Alexandre de Moraes. A legenda, que deve eleger a maior bancada da Câmara, avalia que tem força para pressionar o Senado a pautar o pedido. O impasse coloca em risco a estabilidade institucional.
Especialistas ouvidos pelo portal alertam que a aproximação entre STF e Congresso pode ser saudável se pautada pelo respeito mútuo. No entanto, quando decisões judiciais passam a ser lidas como moeda de troca, a credibilidade da Corte fica comprometida. A fonte não detalhou os termos das conversas entre ministros e parlamentares.
A sucessão no Senado será o primeiro teste concreto dessa nova dinâmica. Se Rogério Marinho vencer, a pressão sobre o STF tende a aumentar. Se um candidato alinhado ao governo for eleito, o tribunal pode ganhar fôlego para manter sua atuação atual. O desfecho definirá o tom da relação entre os Poderes nos próximos dois anos.
O que esperar dos próximos meses
Até fevereiro, o STF deve julgar casos sensíveis que podem inflamar ainda mais os ânimos. A pauta inclui ações sobre a legalidade das decisões monocráticas e o alcance do poder de polícia da Corte. Parlamentares bolsonaristas prometem obstruir votações caso não haja recuo em temas como a regulamentação das redes sociais.
Para o cidadão comum, a politização do STF significa insegurança jurídica e risco de decisões casuísticas. Quando a mais alta corte do país age sob influência política, perde-se a previsibilidade necessária para investimentos e garantia de direitos. O portal Boca no Trombone seguirá acompanhando os desdobramentos e trará novas informações assim que disponíveis.















