Trump recua e não deve reconhecer Flávio Bolsonaro como líder do Brasil, diz Reuters
Trump não apoia Flávio Bolsonaro como líder do Brasil, segundo a Reuters. Governo americano busca evitar nova crise diplomática com Lula.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não tem planos de reconhecer Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como líder legítimo do Brasil, mesmo após o governo americano ter facilitado a entrada do senador e de seus familiares no país. A informação foi divulgada nesta sexta-feira (30) pela agência internacional Reuters, com base em fontes próximas à administração norte-americana.
A decisão representa uma possível mudança de postura de Washington em relação à família Bolsonaro, que recebeu apoio de integrantes do governo americano nos últimos anos. Segundo duas fontes ouvidas pela agência, a Casa Branca não pretende, neste momento, respaldar as declarações de Flávio, que passou a reivindicar a liderança do país após perder a eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A posição, entretanto, não é considerada definitiva. Pessoas familiarizadas com as discussões internas do governo americano afirmaram que Trump ainda poderá rever seu posicionamento.
A avaliação é de que o presidente dos Estados Unidos busca evitar um novo desgaste diplomático com o Brasil, especialmente depois de um período marcado por divergências políticas e tensões entre os dois países.
Trump questiona eleição, mas evita confronto direto com Lula
Mesmo levantando dúvidas sobre a condução do segundo turno das eleições brasileiras, realizado no domingo (25), Donald Trump não declarou apoio formal à candidatura de Flávio Bolsonaro durante a disputa.
O presidente americano chegou a classificar a votação como aparentemente manipulada, mas não apresentou provas que sustentassem essa avaliação.
Ao mesmo tempo, adotou um discurso conciliador em relação ao presidente Lula, reeleito com uma vantagem aproximada de 3,5 pontos percentuais sobre o adversário.
Em declarações à imprensa, Trump afirmou manter uma boa relação com o chefe do Executivo brasileiro, embora tenha demonstrado insatisfação com aspectos do processo eleitoral.
A combinação dessas declarações é interpretada como um sinal de que Washington prefere preservar os canais diplomáticos com Brasília em vez de ampliar o confronto político em torno do resultado das urnas.
Saída de Flávio Bolsonaro do Brasil provoca desgaste político
A viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos ocorreu em meio ao avanço de uma investigação conduzida pela Polícia Federal.
O senador deixou o território brasileiro após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar a entrega de seu passaporte. A medida foi solicitada pela PF no âmbito de uma investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
De acordo com informações obtidas pela Reuters, Flávio e sua família atravessaram a fronteira com a Argentina na noite de terça-feira (27). Posteriormente, embarcaram em uma aeronave particular com destino ao Equador, de onde seguiram para Miami.
As circunstâncias completas do deslocamento entre Brasília e a fronteira argentina ainda não foram esclarecidas publicamente.
A saída do país também provocou críticas entre integrantes da direita brasileira, que esperavam que o senador assumisse um papel de destaque na oposição ao terceiro mandato consecutivo de Lula.
Fontes brasileiras ouvidas pela Reuters avaliaram que a permanência de Flávio no exterior pode dificultar a articulação política do campo conservador no Congresso Nacional.
Governo americano autorizou entrada por razões humanitárias
Embora não pretenda reconhecer a reivindicação política do senador, a administração Trump participou das tratativas que permitiram sua chegada aos Estados Unidos.
Segundo a Reuters, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, recomendou ao presidente que autorizasse a entrada de Flávio Bolsonaro e de seus familiares.
O processo também teria contado com a participação de Jason Miller, assessor próximo de Trump e da família Bolsonaro, que auxiliou na organização do deslocamento a partir da Argentina.
Após discussões entre autoridades do Departamento de Estado e do Departamento de Segurança Interna, a família recebeu uma autorização temporária de entrada conhecida como parole humanitária.
Esse instrumento permite a admissão excepcional de estrangeiros em território americano por motivos humanitários urgentes ou razões relevantes de interesse público.
A concessão desse benefício migratório, porém, não representa reconhecimento político de Flávio Bolsonaro como presidente ou líder institucional do Brasil.
Carta publicada nas redes sociais ampliou a controvérsia
O posicionamento de Washington ganhou importância depois que Flávio Bolsonaro divulgou uma carta aberta na rede social X, na quarta-feira (28).
Na publicação original, o senador se apresentou como presidente eleito do Brasil, apesar de ter sido derrotado nas urnas.
Posteriormente, o documento foi retirado e substituído por outra versão, na qual Flávio passou a reivindicar a condição de líder legítimo do país.
As declarações não alteram o resultado oficial das eleições, que confirmou a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva.
A movimentação também ocorre em um contexto de dificuldades políticas para a família Bolsonaro. O ex-presidente Jair Bolsonaro está preso após condenação relacionada à tentativa de golpe de Estado depois da derrota eleitoral de 2022.
Relação entre Brasil e Estados Unidos entra em nova fase
A decisão de Trump de não apoiar, por enquanto, as reivindicações de Flávio Bolsonaro pode abrir espaço para uma relação mais pragmática entre os governos brasileiro e americano.
Apesar das divergências ideológicas, os dois países mantêm interesses comuns em áreas como comércio internacional, investimentos e cooperação diplomática.
Para integrantes do governo brasileiro ouvidos pela Reuters, a saída de Flávio pode favorecer politicamente Lula, ao reduzir a capacidade de articulação da oposição conservadora.
Por outro lado, a presença do senador nos Estados Unidos mantém aberta a possibilidade de novos desdobramentos diplomáticos e jurídicos.
Até a divulgação da reportagem, representantes do governo brasileiro, do Departamento de Estado americano e de Flávio Bolsonaro não haviam apresentado respostas aos pedidos de posicionamento encaminhados pela Reuters.
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