Mordidas, por Renata Régis Florisbelo
Ao meio-dia, entre buzinas e carros apressados, um homem atravessa a avenida com pastel e suco, transformando o caos urbano em uma cena de leveza.

Ele atravessava a avenida. Uma figura que parecia se descolar do cenário, do sinaleiro. Meu olhar também se desfocava e já não sabia se olhava para ele em seus passos firmes rompendo o cruzamento mais agitado da cidade, ou se me atinha em mirar os carros que vinham afoitos em rasgar aquele asfalto cravejado de gente atenta e desatenta.
Na mão direta ele portava o pastel e na esquerda a garrafa plástica de suco de laranja. E seu corpo caminhava alternando passos com mordidas e goles, embalada pelo ronco dos motores, sirenes e buzinas, nada dóceis. A mim ele se assemelhava a um emoji inserido numa foto, um ícone de alegria que se desprende do contexto Sim, é possível alcançar o Nirvana comendo pastel no sinal vermelho para pedestres em pleno sinaleiro. O relógio no painel da avenida acusava exatos 12h. Sim, era tempo de almoçar, refeição ambulante e móvel. O pastel segue feliz com uma boca a lhe convergir.
Autoria: Renata Regis Florisbelo
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