Nova York testa socialismo com lições da Venezuela
A Prefeitura de Nova York planeja abrir cinco mercados subsidiados para vender alimentos abaixo do preço de mercado. A proposta de US$ 70 milhões, do prefeito Zohran Mamdani, levanta preocupações com a revenda e é comparada ao Mercal venezuelano, programa de Hugo Chávez que gerou escassez. Especialistas apontam diferenças operacionais, mas o debate sobre o papel do Estado reacende.

Nova York testa socialismo com lições da Venezuela
O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, anunciou um programa de US$ 70 milhões para vender alimentos abaixo dos preços praticados pelo comércio privado. A iniciativa, revelada em 27 de julho, prevê a criação de apenas cinco mercados subsidiados, mas já provoca discussões acaloradas nos Estados Unidos.
O motivo: a proposta remete ao Mercal, rede estatal venezuelana que, sob o governo de Hugo Chávez, ampliou a escassez e gerou longas filas nos supermercados do país caribenho.
A coletiva de imprensa, realizada no último dia 27, serviu de palco para o anúncio. Mamdani detalhou os objetivos do programa e foi confrontado com a principal dúvida: como evitar a compra para revenda. O prefeito manteve o tom social, mas admitiu que a questão é central.
Alimentos subsidiados para a população
A justificativa de Mamdani é direta. O prefeito quer usar dinheiro público para baratear a alimentação na maior cidade americana. Em suas palavras, o programa foi concebido “para ajudar os nova-iorquinos a colocar comida na mesa”, e não como um mecanismo para gerar lucro fácil com revenda.
A administração municipal acredita que o custo de vida elevado na metrópole exige medidas ousadas de apoio às famílias trabalhadoras. Para isso, o projeto destina US$ 70 milhões à abertura de cinco pontos de venda. Os detalhes ainda estão sendo formatados, mas a previsão é que as lojas operem com preços significativamente menores do que os encontrados em supermercados e bodegas tradicionais.
Receio de revenda preocupa
A questão que logo surgiu é prática: se os alimentos custarem muito menos, como evitar que compradores adquiram grandes volumes para revender no mercado paralelo, obtendo lucro indevido do subsídio? Na coletiva do dia 27, Mamdani foi confrontado com essa dúvida. O prefeito respondeu reiterando o foco social do projeto, mas não apresentou uma solução concreta naquele momento.
Jeanny Pak, presidente interina da New York City Economic Development Corporation, adiantou que a prefeitura cogita um sistema inspirado em “carteirinha de biblioteca”. A ideia seria cadastrar os usuários e estabelecer limites de compra por pessoa, dificultando a revenda. Nenhum detalhe adicional foi divulgado, e a fonte não detalhou o cronograma de implantação desse controle.
Paralelo com a Venezuela parte da dúvida
A experiência do Mercal
O ponto de partida do artigo da Edição 334 da Revista Oeste é exatamente esse questionamento sobre a revenda. A publicação recupera a experiência do Mercal, criado em 2003 pelo então presidente Hugo Chávez, para mostrar os riscos de programas de subsídio estatal.
O Mercal foi uma rede concebida para vender alimentos subsidiados à população de baixa renda e, inicialmente, aliviou o bolso dos mais pobres. No entanto, o Mercal atuava dentro de uma política econômica muito mais ampla, marcada por controles de preços e câmbio, importações com subsídios e desapropriações de empresas. Esses fatores, combinados, deterioraram as condições econômicas do país. A escassez de produtos, as filas intermináveis e o mercado negro se tornaram símbolos da crise venezuelana.
Nem só de Mercal se fez a crise
O artigo da Revista Oeste faz uma ressalva importante: o programa de Chávez, isoladamente, não explica a falta de alimentos na Venezuela. A carência resultou de um conjunto de decisões que minaram a capacidade produtiva do país. No entanto, o Mercal expôs as fragilidades de um modelo que coloca o estado como provedor central de bens básicos.
Nova York em contraste com a Venezuela
Escala reduzida
É nesse ponto que a reportagem da revista estabelece diferenças relevantes. O projeto de Mamdani é minúsculo se comparado à rede do Mercal. Serão cinco estabelecimentos em uma cidade que já possui mais de 1,1 mil mercados e 10 mil bodegas. A escala reduzida, segundo os analistas, minimiza o risco de desabastecimento generalizado.
Operação privada e fiscalização
Outro contraste está na gestão. As lojas subsidiadas de Nova York serão operadas por empresas privadas, e não pelo poder público. Além disso, estarão sujeitas a fiscalizações múltiplas: órgãos municipais, tribunais, imprensa e a própria sociedade. Essas salvaguardas, em tese, reduzem a chance de ineficiências e corrupção endêmicas. Ao combinar operação privada com supervisão estatal, o modelo nova-iorquino tenta unir eficiência e controle.
Debate segue em aberto
Próximos passos e controvérsias
Enquanto o projeto não é implementado, a administração municipal trabalha na regulamentação e nos mecanismos de controle. A proposta já divide opiniões. Para seus defensores, a intervenção estatal pontual pode corrigir distorções do mercado e garantir comida farta para quem mais precisa. Para os críticos, mesmo uma experiência limitada carrega o risco de repetir, ainda que em ponto menor, os erros venezuelanos.
O prefeito Mamdani reafirmou que o intuito é exclusivamente social, não comercial. Mas a sombra do Mercal e das prateleiras vazias de Caracas continua pairando sobre o debate, lembrando que iniciativas bem-intencionadas podem ter consequências imprevistas.
A prefeitura ainda não definiu quando as lojas começarão a funcionar; o projeto depende de aprovações orçamentárias e da seleção das operadoras. Até lá, o projeto continuará sob escrutínio da opinião pública, da imprensa e dos órgãos de controle locais.























