SEGUNDA-FEIRA · 05 OUT 2026Ponta Grossa 15°C 🌧️
Publicidade
Colunistas

O esvaziamento das candidaturas alternativas à polarização

Voto útil marcou o primeiro turno e fortaleceu Flávio Bolsonaro e Lula. Agora, o eleitor independente pode ser decisivo no segundo turno.

O esvaziamento das candidaturas alternativas à polarização
O esvaziamento das candidaturas alternativas à polarização
Publicidade

Pouco mais de 7% podem parecer pouco em uma eleição presidencial. Mas, neste caso, podem explicar boa parte do que aconteceu no primeiro turno. Esse foi o percentual somado das candidaturas alternativas a Flávio Bolsonaro e Lula, que acabaram ficando pelo caminho. Mais do que representar um eleitorado disperso, esses votos ajudam a revelar a força de um movimento que costuma aparecer com intensidade nas últimas semanas de uma eleição: o voto útil.

À medida que a votação se aproximou, parte do eleitorado deixou de escolher necessariamente o candidato de sua preferência para apostar naquele que considerava ter condições reais de chegar ao segundo turno. O cálculo foi simples. Em vez de insistir em uma candidatura alternativa, o eleitor preferiu escolher um dos dois favoritos. Não significa, necessariamente, uma mudança de convicção política. Muitas vezes, é apenas uma mudança de estratégia.

Sem essa migração, o resultado poderia ter sido diferente. Talvez a eleição não tivesse sido definida no primeiro turno, talvez os dois líderes sequer chegassem à segunda etapa com a mesma vantagem. O fato é que a proximidade da decisão empurrou parte do eleitorado para as candidaturas com maior competitividade e consolidou a polarização entre Flávio e Lula.

As pesquisas já indicavam esse movimento. E algumas candidaturas sentiram o efeito de maneira mais dura. Augusto Cury é provavelmente o caso mais evidente. Chegou a registrar cerca de 7% em levantamentos eleitorais, mas terminou o primeiro turno com 2,89%. A diferença mostra como uma candidatura pode perder espaço justamente quando a eleição entra em sua fase decisiva. Seu eleitorado pode não ter deixado de concordar com suas propostas. Apenas entendeu que, naquele momento, votar em uma terceira opção poderia significar desperdiçar o voto.

Para Lula, o voto útil pode ter produzido algum benefício, mas também expõe um problema para o segundo turno. A quantidade de votos disponível entre as candidaturas que ficaram pelo caminho parece limitada para sozinha, provocar uma virada contra Flávio. O presidente terá, portanto, de procurar crescimento em outro campo. E o principal alvo passa a ser o eleitor independente, especialmente aquele que votou em Bolsonaro no primeiro turno e que não demonstra, até agora, disposição clara para migrar para Lula.

É justamente esse eleitor que pode decidir a eleição. Flávio chega ao segundo turno com a vantagem de ter vencido a primeira etapa e poderá explorar politicamente esse resultado. Terá a seu favor a narrativa de quem largou na frente e agora precisa apenas administrar a vantagem. Mas essa é uma leitura perigosa. Vencer o primeiro turno não significa necessariamente manter a votação. O segundo turno exige uma nova mobilização, novos apoios e, principalmente, a capacidade de convencer eleitores que não estavam ao lado do candidato na primeira votação.

Lula, por outro lado, terá uma tarefa mais difícil. Precisa transformar a desvantagem em possibilidade de virada e, para isso, terá de buscar votos além daqueles que já estavam no campo das candidaturas derrotadas. Não basta esperar uma nova migração provocada pelo voto útil. Será preciso produzir uma mudança de disposição no eleitorado.

O primeiro turno, portanto, resolveu apenas quem continuaria na disputa. A eleição presidencial ainda não está decidida. Flávio tem a vantagem política de quem venceu a primeira batalha, mas Lula ainda tem a oportunidade de transformar a segunda etapa em uma nova disputa. O desafio de um é preservar. O do outro é conquistar.

E talvez essa seja a principal diferença entre os dois turnos: no primeiro, o eleitor escolheu quem queria ver na disputa. Agora, terá de decidir quem quer ver no Palácio do Planalto. A vantagem construída na primeira etapa pode ser importante, mas não vota sozinha. No segundo turno, vence quem conseguir transformar vantagem em maioria. E é justamente aí que começa a verdadeira eleição.

 

Leia também: Quanto vale o voto no PR? Milhões movimentam a corrida pelo Iguaçu? por Gleidson Carlos

Tags
Quer ver a BnT mais vezes no Google?
Gleidson Carlos
Autoria
Gleidson Carlos
Gleidson Carlos Greinert é jornalista formado em Comunicação Social desde 2014. Atua como escritor/articulista político, radialista e presta assessoria de imprensa e marketing. Ele é pós-graduado em Ciência Política.
Ver todas as matérias →
Publicidade
Publicidade
Notícias relacionadas
Web Stories
Todas →
Faz parte da rede