PM do Paraná vai revisar protocolos de atendimento em terreiros de Umbanda e Candomblé
Mudanças serão construídas em conjunto com lideranças religiosas e incluem capacitação dos policiais militares para atuação em espaços considerados sagrados

A Polícia Militar do Paraná (PMPR) anunciou que vai revisar os protocolos utilizados em atendimentos de ocorrências envolvendo terreiros de Umbanda e Candomblé em todo o estado. A decisão foi definida nesta segunda-feira (8), durante uma reunião entre representantes do Comando-Geral da corporação e lideranças de religiões de matriz africana, articulada pelo deputado estadual Goura (PDT).
A medida ocorre após a repercussão de uma operação policial realizada em um terreiro de Curitiba. A partir de agora, a PM pretende construir novas diretrizes para orientar principalmente atendimentos relacionados a denúncias de perturbação do sossego, que representam grande parte dos chamados recebidos pela corporação.
Segundo Goura, o objetivo é garantir que as ações policiais respeitem a liberdade religiosa e as características dos espaços de culto.
“Queremos garantir o respeito à sacralidade dos templos e eliminar os excessos operacionais”, afirmou o deputado.
Ele destacou ainda que o diálogo entre representantes religiosos e a Polícia Militar busca construir soluções institucionais. “É fundamental reafirmar que esta reunião ocorreu na perspectiva de priorizarmos o diálogo e a construção política cidadã como caminhos ideais para a solução de conflitos”, disse.
Novas orientações para policiais
O novo protocolo deverá ser elaborado com a participação de lideranças religiosas, órgãos públicos e policiais militares ligados às religiões de matriz africana. Entre os pontos previstos estão mudanças na forma de comunicação com os responsáveis pelos terreiros, revisão de critérios de atuação e treinamentos específicos para as equipes.
O comandante de Policiamento Especializado (CPE), coronel Rogério Gomes Pitz, afirmou que os procedimentos atuais precisam ser atualizados.
“Vamos construir as novas regras em conjunto com as lideranças das religiões de matriz africana e com os policiais militares que integram essas matrizes”, explicou.
Segundo ele, uma das mudanças será evitar procedimentos automáticos, como apreensão de instrumentos utilizados em cerimônias religiosas.
“Vamos eliminar a exigência de tratar apenas com o responsável legal do terreiro e, principalmente, reavaliar os critérios de apreensão para impedir o recolhimento automático de tambores e objetos sagrados”, afirmou.
O coronel reforçou que os policiais deverão reconhecer os terreiros como espaços religiosos.
“O ideal é a polícia não entrar nesses locais como se estivesse fiscalizando uma casa noturna. O procedimento correto exige bater na porta e dialogar”, destacou.
Capacitação da tropa
O comandante do 1º Comando Regional da Polícia Militar (CRPM), coronel Marcelo Roke Fávero, explicou que a revisão será feita de forma conjunta com representantes das comunidades, além de órgãos ligados ao meio ambiente, urbanismo e saúde.
“A partir disso, nossa missão na Polícia Militar será instruir e qualificar toda a tropa para que sigam as regras corretamente”, afirmou.
Fávero ressaltou que o policial em serviço representa o Estado e deve atuar respeitando todas as manifestações religiosas.
Caso que motivou discussão
A revisão ganhou força após uma Ação Integrada de Fiscalização Urbana (AIFU) realizada em 8 de maio de 2026 no Terreiro Guerreiros do Vento, no bairro Santa Cândida, em Curitiba.
A operação contou com equipes da Polícia Militar, Corpo de Bombeiros e fiscalização municipal, e gerou questionamentos sobre o tamanho do efetivo empregado.
Segundo a dirigente espiritual Talissa Carvalho Huebner, o terreiro possui a documentação exigida pela prefeitura e vinha enfrentando conflitos relacionados a reclamações de uma moradora da região.
“A iniciativa de revisão do protocolo é de extrema importância para garantir a segurança e o respeito aos nossos espaços de culto”, declarou.
Representantes das comunidades de terreiro avaliaram a abertura do diálogo como um avanço para evitar conflitos e garantir que futuras abordagens considerem as características das religiões de matriz africana. (Com assessoria)
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