Quem votou em Flávio e Lula no primeiro turno? por Gleidson Carlos
Segundo turno expõe avanço de Flávio Bolsonaro, perda de espaço de Lula na classe C e disputa por milhões de eleitores ainda indefinidos.

A vantagem de Flávio Bolsonaro é um ponto que precisa ser considerado nesta eleição. Não apenas pela distância em votos, que passa dos dois milhões, mas porque o bolsonarismo também conseguiu uma vitória importante na renovação do Congresso Nacional. Isso reforça a percepção de uma espécie de avalanche da direita neste segundo turno. Mas será que esse resultado pode ser explicado exclusivamente pelo bolsonarismo? Eu acredito que não. Existe um movimento mais amplo acontecendo, que pode representar uma mudança na relação do eleitor com o sistema político e, principalmente, uma dificuldade do lulismo em manter a conexão que teve com determinados segmentos do eleitorado em 2022.
E aqui está um dado que chama atenção. O maior deslocamento de votos de Lula para Flávio aparece justamente entre eleitores da classe C e nas regiões periféricas. E esse eleitor não pode ser automaticamente classificado como antilulista ou bolsonarista. Se fosse simplesmente uma questão ideológica, seria difícil explicar alguns dos outros resultados. Lula praticamente empata com Flávio entre os eleitores da classe A e vende entre os eleitores da classe E. Então existe uma contradição importante nesse resultado. O eleitor mais pobre continua dando sinais de proximidade com Lula, enquanto uma parcela importante da classe C, especialmente nas periferias, parece estar se afastando.
O que isso significa? Na minha leitura, significa que existe um eleitorado potencialmente disputável. Não necessariamente um eleitor que se tornou de direita, mas um eleitor que não está encontrando na campanha de Lula uma resposta para aquilo que espera de um quarto mandato. É uma diferença importante. Porque, se esse diagnóstico estiver correto, o problema do governo não é apenas enfrentar o bolsonarismo. É recuperar a capacidade de conversar com um eleitor que já esteve com Lula, mas que agora está procurando outra alternativa.
E existe ainda uma parcela enorme do eleitorado que pode definir essa eleição. São 33,4 milhões de eleitores que não compareceram às urnas e aproximadamente 9 milhões que votaram em candidaturas que não foram nem Lula, nem Flávio. Esse eleitorado alternativo, menos ideológico e mais independente, não necessariamente vai se comportar em bloco. Uma parte vai migrar para Flávio, outra para Lula e outra pode simplesmente permanecer distante da disputa.
Por isso, eu vejo o segundo turno menos como uma simples disputa entre lulismo e bolsonarismo e mais como uma disputa pela capacidade de cada candidatura de ampliar sua base. Flávio parte de uma vantagem concreta e tem a força de uma direita mobilizada. Lula, por outro lado, ainda possui uma reserva eleitoral importante entre os eleitores que já estiveram com ele e entre aqueles que não se identificam com o bolsonarismo. A grande questão é quem conseguirá transformar esse eleitor potencial em voto efetivo. E, neste momento, talvez seja justamente aí que esteja a eleição.
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