Fome, por Renata Régis Florisbelo
Um conto sensível sobre fome, convivência e perda, em que um caramujo se torna metáfora para os vazios que permanecem dentro de nós.

Um dia me serviram um caramujo. Não pensei muito e também não mastiguei muito. Deixei que ele descesse pela garganta como uma criança desce de tobogã. E por lá, pelo fundo do estômago aquele bicho engraçado foi ficando e nos tornamos companheiros, eu do lado de fora e ele do lado de dentro. Minha fome agora acompanhada da fome dele, um caramujo.
Gostava especialmente de sorvete de coco e de berinjela gratinada. E meu paladar começou a se dividir entre o meu e o dele, assim como a fome, parte minha, parte dele. E meus pratos foram aumentando, crescendo e já eram travessas cheias de tudo a ser saboreado por mim e principalmente por ele.
Num fim de tarde de outono, junto com os últimos raios de sol ouvi um gemido vindo de dentro. Era ele que minguava e partia.
Os caramujos não duram muito. Nossa fome, juntos, acabou, só minha fome dele permaneceu.
Autoria: Renata Regis Florisbelo
Leia também: Caixa de fósforo, por Renata Régis Florisbelo
























